sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quilombolas do Baixo-Sul na 14ª Feira Cultural e Saúde

Como a base da motivação desta coluna são nossas experiências cotidianas junto às comunidades quilombolas com as quais dialogamos, trago para vocês algumas observações sobre o intercâmbio realizado nos dias 23 e 24 de setembro entre quilombolas e candomblecistas na 14ª Feira Cultural e de Saúde.



Na região do baixo-sul da Bahia, o projeto Comércio com Identidade – uma parceria de KOINONIA com o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop), financiada pela Secretaria do Trabalho Emprego, Renda e Esporta da Bahia - atende três comunidades quilombolas localizadas no município de Camamu: Dandara dos Palmares, Quilombo do Barroso e Quilombo Jatimana/Boa Vista.

Este projeto, além de apoiar a ampliação de redes femininas e mistas de economia solidária e comércio justo, busca garantir os direitos dessas mulheres que vêm enfrentando situações graves de violência, complicadas pela baixa efetividade local das políticas públicas de redução das desigualdades de gênero. A distância das instituições públicas que fazem parte da rede de atendimento às mulheres em situação de violência é um dos principais problemas. O investimento principal do projeto é no amplo reconhecimento da identidade quilombola e das desigualdades entre homens e mulheres, com um duplo objetivo: consolidar o sentido dessas redes femininas locais como meio de tornar o comércio mais justo, aumentar a presença feminina; e estimular a participação política delas a partir do debate de suas especificidades identitárias e demandas políticas (como, por exemplo, poder contar com a rede de atendimento mesmo em áreas rurais afastadas).

Em Salvador, o Ilê Axé Iyá Nasso Oká, Terreiro da Casa Branca - como é mais conhecido -, é o primeiro Monumento Negro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1986. Segundo a tradição oral, os primeiros axés do candomblé ketu-nagô teriam sido plantados, no início do século XIX, na Ladeira do Berquió, próxima da Igreja da Barroquinha, centro de Salvador. Na segunda metade do século XIX, o terreiro se transferiu para o Engenho Velho da Federação, então subúrbio da cidade, onde hoje se encontra. Esta casa tem suas ações sociais realizadas por sua associação civil e pelo Espaço Cultural Vovó Conceição, que tem com finalidade apoiar iniciativas culturais de resgate e fortalecimento da cultura negra, voltada aos costumes e religiosos tradicionais do Candomblé. Dessa junção nasceu a Feira de Saúde, que se tornou Feira Cultural e de Saúde, e que em 2016 chega a 14º edição. Esta ação oferece serviços de saúde e cultura diversa, sendo realizada na Praça de Oxum, dentro do espaço do terreiro.

Organizar e promover espaços de intercâmbio está na nossa concepção de educação popular e processos formativos de desconstrução de preconceitos e estereótipos, bem como na prática de estreitar laços entre movimentos e grupos sociais distintos. Neste sentido, nos propomos a mais uma vez criar estes laços, tendo como pano de fundo principal a produção das comunidades quilombolas e de terreiros.



Sair de uma comunidade que fica a mais de 20 quilômetros do centro do município de Camamu e se deslocar para Salvador, que são mais ou menos 6 horas de viagem, já é por si só uma aventura. Agregue a isso ir participar de uma feira que está na sua décima quarta edição! Bom, essa foi a experiência vivenciada pelas 16 mulheres quilombolas das comunidades de Barroso e Dandara que participaram da Feira de Cultural e de Saúde no Terreiro da Casa Branca.

Mesmo sendo parte das práticas do trabalho de KOINONIA o diálogo sobre combate aos preconceitos discriminatórios e a intolerância, estar no espaço sagrado de outra religiosidade é desafiador, e foi assim que desceram da van, com toda a sua produção da agricultura familiar, de geleias, dendê, pimentas, licores e outros produtos beneficiados e com os olhos bem abertos para captar o máximo desta experiência.

A recepção calorosa de Equede Sinha foi fundamental para o acolhimento e a constatação de que os elementos que nos unem são muito maiores do que os que nos separam: estávamos diante de uma ação construída por uma comunidade religiosa que promove direitos e diálogo, além de cultura. E essa experiência é muito semelhante com o que estas mulheres vêm construindo na Feira Agroecológica das Mulheres Contra a Violência (já relatada aqui no Caderno de Campo – Colhendo esperança: feira das mulheres no Baixo-Sul).



Conhecer os espaços com os passos guiados pelo Ogã de Oxossi e Diretor Executivo de KOINONIA Rafael soares de Oliveira, foi outro momento que marcou a experiência vivenciada, conhecer para solidificar o respeito e destruir os preconceitos.




A comercialização e os diálogos ocorreram durante todo o dia, com intervalos para apresentações culturais, mesas de debate, abraços, sorrisos, acarajé e caruru.

As falas na saída reafirmaram que estamos no caminho certo. Da comunidade quilombola do Barroso, Ana Carine declarou: “Nossa, eu amei! Aqui é lindo e fui muito bem tratada”. Enquanto Maria fez questão de registrar a importância de levar a família da Casa Branca para conhecer o quilombo: “Mas tem que levar eles lá!”. Da comunidade de Dandara dos Palmares, Augusta disse: “Vou guardar para sempre este dia”.

Mesmo com todos os golpes oriundos da política, seguimos na construção de pontes e na junção das lutas por uma sociedade mais justa e que acolha a todos com suas especificidades. Continuamos na luta!

Ana Gualberto - Historiadora; Mestranda em Cultura e Sociedade – UFBA; Editora do Observatório Quilombola; Coordenação – Assessoria a comunidades negras tradicionais.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

UFF/UNEB - Relatos de experiência da prática docente

Depois de três semanas de atraso, finalmente consegui voltar ao nosso Caderno de Campo. Durante esse período, dividi meu tempo basicamente em duas frentes de trabalho diferentes: o retorno às aulas na Universidade Federal Fluminense (UFF) e a realização de um seminário temático na Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Em ambos espaços, discutimos sobre a luta pela garantia dos direitos quilombolas e políticas públicas de ações afirmativas. São essas experiências que hoje trago para vocês.

Com relação às aulas na UFF, é uma alegria muito grande dividir a disciplina “Dimensões da escravidão: modernidade, ilegalidade e apropriações contemporâneas” com o historiador (meu amigo e vizinho de Irajá) Thiago Campos. Eu conheci o Thiago há dez anos atrás, quando eu cursava a graduação na UFRJ e ele na UFF. Nessa época descobrimos, cada qual no seu canto (ele na UFF e eu em KOINONIA), o universo mágico das comunidades remanescentes de quilombo do sul-fluminense. Foi através da experiência junto a esses grupos que embarcamos na viagem rumo ao século XIX. Eu voltei dessa viagem para o tempo presente, ele segue firme na jornada. Sua tese, “A indiscrição como ofício: o complexo cafeeiro revisitado (Rio de Janeiro, c.1830 – c.1888)", defendida no Programa de Pós-Graduação em História da UFF, foi premiada pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional e pela própria UFF como melhor tese de 2015. Vale a pena a leitura!

Nosso curso é dividido em duas partes. A primeira será ministrada pelo Thiago e consiste na análise da reestruturação da escravidão africana no Atlântico ao longo do século XIX. Na segunda, ministrada por mim, trataremos das apropriações contemporâneas desse processo através da luta pela titulação dos territórios remanescentes de quilombo. Para nossa surpresa, a turma lotou!

Entre as atividades extraclasse, estamos organizando o Seminário Tráfico Negreiro e Estado Nacional no Mundo Atlântico (STENA) – Edição Especial Mangaratiba, que ocorrerá no dia 20 de outubro na UFF. Para essa sessão do STENA contaremos com as apresentações de Fernanda Pinheiro e Raquel Terto: “Memória e legado material do tráfico de escravos e dos africanos no Rio de Janeiro – da chegada clandestina às apropriações contemporâneas do passado” e do próprio Thiago: “O comércio ilegal de africanos na montagem do complexo cafeeiro fluminense: o caso Breves”. Trata-se de um evento aberto, além dos nossos alunos inscritos, quem estiver interessado é só chegar. Estão todos convidados.




O seminário na UNEB foi fruto de mais uma parceria minha com a grande historiadora (e minha amiga!) Ana Gualberto. Por aqui, Ana dispensa apresentações, pois é ela quem assina as páginas desse caderno comigo. Começamos a trabalhar juntas em 2005, quando estávamos na graduação (Ana foi aluna da UERJ de São Gonçalo) e desde então, ela tem sido uma grande inspiração para mim. Principalmente no que se refere a militância junto às comunidades remanescentes de quilombo.



Eu e Ana Gualberto – Foto: Daniela Yabeta

Viajamos para a cidade de Cipó, localizada no sertão da Bahia, no dia 16 de setembro e ficamos por lá até o dia 20. O município é conhecido por conta de suas águas termais. A busca por tratamentos na estância hidromineral de Cipó impulsionou o turismo e promoveu a emancipação do município na década de 1930. O Grande Hotel, inaugurado por Getúlio Vargas em 1952 (hoje desativado), é o retrato vivo dos tempos áureos desse pequeno oásis baiano.

No entanto, não foram as águas termais de Cipó que nos levaram até lá. Eu e Ana realizamos o seminário temático “Quilombos contemporâneos: debates sobre a inclusão da temática no currículo escolar” para professoras da educação básica que atualmente cursam Pedagogia pela Plataforma Freire no campus da UNEB, localizado na cidade. Uma experiência espetacular!




Turma de Pedagogia PARFOR/UNEB – Foto: Daniela Yabeta

Durante três dias discutimos sobre diáspora africana, relações étnico-raciais e educação quilombola. No município de Cipó existem atualmente três comunidades remanescentes de quilombo certificadas pela Fundação Cultural Palmares desde 2005: Várzea Grande, Caboge e Rua do Jorro. Debates em torno da aplicação da Lei 10.639 (que torna obrigatório o ensino e História e Cultura Afro-Brasileira) e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica tornaram-se ainda mais urgentes para essas professoras.

Um dos melhores momentos do seminário foi nossa visita ao quilombo do Caboge. Ao chegarmos na comunidade, conhecemos o bar da Marlene (presidenta das três associações quilombolas), nos divertimos com a cascata construída por ela e tivemos o privilégio de conversar com Dona Helena, sua mãe. Ela nos contou sobre os tempos glamorosos do turismo na cidade, quando caminhava mais de três quilômetros – do sítio onde morava até o centro de Cipó – para participar das festas que ocorriam no cassino e nos salões do Grande Hotel. Contou também sobre a dura infância no campo, muito trabalho e pouca chance de frequentar a escola.



Cascata do quilombo do Caboge – Foto: Daniela Yabeta

Sobre as atividades realizadas durante o seminário, as professoras organizaram pequenas peças teatrais nas quais encenaram situações de racismo que as crianças quilombolas vivem no cotidiano escolar. Após relatarem suas experiências, pensamos no desafio de mudar essa realidade dentro da sala de aula. Diante da provocação, as professoras produziram planos de aula para serem trabalhados na Educação Básica onde discutem, entre outros temas, a valorização da cultura quilombola e a contribuição dessas comunidades para o desenvolvimento do município de Cipó. Destacaram a importância de trabalharem uma “outra” história da cidade: das águas termais para as comunidades negras rurais. Esse material será publicado na Revista do Observatório Quilombola de novembro de 2016. Vocês não perdem por esperar! Por ora, deixo aqui a poesia escrita pela professora Valnice Santos Souza que traduz bem o espírito do nosso encontro.


Trabalhar com Ana e Thiago é um tremendo presente. O tempo passou, mas o prazer pela pesquisa e o gosto pela prática docente só fez aumentar nesses dois. Em tempos difíceis, ter a oportunidade de dividir com eles esses momentos funcionou como uma injeção de ânimo para mim. Que venham mais experiências como essas!

Daniela Yabeta - Historiadora - Pós-Doutoranda em História (UFF-FAPERJ) - Editora da Revista do Observatório Quilombola 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Colhendo Esperança: Feira das Mulheres do Baixo Sul

Hoje trago para vocês um dia que me serviu para recuperar as forças e a esperança nas mudanças de nossa sociedade. Em meio ao ambiente de golpe e perdas, precisamos mais que nunca celebrar e compartilhar coisas boas.





Foto: Joice Santiago

No último dia 2 de setembro aconteceu a quinta edição da já tradicional Feira Agroecológica das Mulheres Contra a Violência, na cidade de Camamu (BA), com apoio de várias organizações e movimentos sociais. Esta feira surgiu da necessidade das mulheres negras quilombolas, agricultoras, pescadoras, marisqueiras e extrativistas em afirmar sua capacidade produtiva, conquistar espaço para realizar comercialização e defender suas bandeiras. A bandeira que foi abraçada por este coletivo desde seu início, foi e é algo que assola a nós todas, de forma direta ou indireta: a violência contra as mulheres.

Escrever sobre a experiência de mais uma edição desta feira me coloca em um momento de nostalgia e esperança, pois começamos com a participação das comunidades de Camamu, aproximadamente 80 pessoas, hoje, na quinta edição, tivemos aproximadamente 300 agricultoras e a circulação de mais de 500 pessoas. Então é falar de dentro deste movimento que junta mulheres dos movimentos sociais, das organizações da sociedade civil, sindicatos e demais grupos, e nos coloca como companheiras na construção das mudanças.


Foto: Joice Santiago

A feira de agroecológica de mulheres surgiu em 2012 com o objetivo de manter essas comunidades atentas à questão da desigualdade de gênero em suas diferentes expressões, criando, simultaneamente, oportunidades para que as mulheres – muitas vezes excluídas da partilha dos dividendos da pequena produção agrícola – pudessem comercializar bens que são fruto de seu trabalho. Em 2014, produzimos um vídeo sobre a feira que pode ser acessado aqui.

Infelizmente o problema da violência contra as mulheres na região do baixo sul da Bahia ainda está longe de ser superado – ver “Narrativas sobre violência contra mulheres no Baixo Sul da BA”. Embora as cidades da região não estejam nos mapas de violência, no cotidiano das mulheres a violência ainda é muito presente. O distanciamento dos centros urbanos, a falta de atendimentos de qualidade tanto nas delegacias, como os aparelhos públicos de atendimento as mulheres, contribuem para que estes casos não sejam registrados e passem a alimentar os índices coletados em nosso país. Só exemplificando, no início deste ano tivemos uma companheira assassinada e violentada numa comunidade, além das constantes narrativas de violência física, patrimonial e principalmente psicológica. Mas não estar sozinha ajuda e muito...

Temos durante estes anos criado espaços de diálogo, acolhimento e apoio entre as mulheres e essa feira, que já entrou para calendário da cidade, é o ápice da publicização do que temos feito. É na feira que cada comunidade traz além de sua produção, suas apresentações culturais, suas falas motivadoras, seus sonhos de autonomia econômica se mostram possíveis e palpáveis. A feira é muito mais do espaço de venda, é espaço de troca e de esperança.


Foto: Joice Santiago


Muito samba de roda, muitos sorrisos partilhados, muitos sonhos visitados e explicitados. Esse é o resumo de mais uma feira das mulheres. Aproveito para finalizar com o trecho de uma música cantada pelas mulheres da comunidade quilombola de Jetimana, localizado no município de Camamu (BA): “... acabou a brincadeira, as mulheres de hoje em dia já mandam é na casa inteira”.


Ana Gualberto - Historiadora; Mestranda em Cultura e Sociedade – UFBA; Editora do Observatório Quilombola; Coordenação – Assessoria a comunidades negras tradicionais


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

1º de agosto: a Tocha Olímpica e a Vigília da Dignidade

No dia 1º de agosto o estado do Rio de Janeiro já transpirava olimpíadas por todos os poros. A respeito desse ponto, gostaria de compartilhar sobre dois eventos que ocorreram nesse dia: o trajeto da tocha olímpica no município de Armação dos Búzios e a Vigília da Dignidade, promovida por KOINONIA e outras organizações e movimentos sociais.

A tocha olímpica chegou ao Rio de Janeiro no dia 27 de julho, nessa data (01 de agosto) ela continuava seu trajeto até chegar ao Maracanã, no dia 05 de agosto. Durante sua passagem pelos municípios do estado, algumas comunidades quilombolas estavam (e oxalá continuarão!) no caminho percorrido.

No município de Armação dos Búzios, a comunidade quilombola da Rasa – certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2005 e que ainda hoje luta pela titulação de seu território, foi incluída no percurso de passagem da tocha olímpica. Como sempre, foram escolhidas pessoas para conduzir a tocha, fazendo revezamento. Pois bem, uma das escolhidas para esse nobre momento foi Eva Maria de Oliveira, conhecida por todos na região como tia Eva, mãe de Dona Uia, um símbolo da resistência e luta do povo quilombola, uma mulher de 106 anos que continua firme e consciente, sendo pedra fundamental na luta de seus descendentes pelo direito de permanecer em seu território e na retoma das terras perdidas.

Dona Eva - Tocha olímpica passa por Búzios. | Foto: Jornal Sem fronteiras

Pois bem, Tia Eva carregando a tocha é ótimo, não é? Então, o povo quilombola da região dos lagos se organizou para estar presente e dar visibilidade a existência e resistência do povo quilombola durante o evento. Nas redes sociais, pude acompanhar que participaram do evento quilombolas das comunidades de Maria Joaquina (Cabo Frio), Maria Romana (Cabo Frio), Botafogo (Cabo Frio) e Baía Formosa (Armação de Búzios). No entanto, a festa não foi tão democrática assim.

Tia Eva não foi reverenciada como representante de uma comunidade quilombola. Uma comunidade que é parte da história do município de Búzios, da história do estado do Rio de Janeiro e tem uma trajetória importante no movimento quilombola. Ela não foi levada ao palco, não houve homenagem a sua resistência e sua origem. Foi referida no material divulgado como mais uma “mulher de mais de 100 anos que conduz a tocha”. Foi aí que uma questão me veio: Tia Eva é só isso? Por que silenciar quanto a sua identidade quilombola?

Paralelamente, ainda no dia 1º de agosto, na Praça da Cinelândia - Centro do município Rio de Janeiro, aconteceu a Vigília da Dignidade. O evento fez parte da Jornada de Lutas, realizada durante o período das Olimpíadas e que contou com a participação de mais de 100 organizações do movimento social. Ao longo do dia, diversos movimentos, urbanos e rurais, comunidades tradicionais e grupos religiosos, puderam expor como estamos em constante negação da dignidade humana, mas também em como acreditamos que seja possível conviver e cuidar juntos de nossa casa comum.

A Vigília da Dignidade contou com a participação de mais de 40 quilombolas das comunidades de Maria CongaSantaRita do Bracuí - comunidade onde deixei meu umbigo enterrado, onde pesquisei e produzi minha monografia, parte de minha história pessoal; e Alto da Serra, comunidade que acompanho desde 2003, quando iniciaram seu processo de aproximação com o movimento quilombola. Durante o evento, pude reencontrar amigos e amigas quilombolas que eu não via há muito tempo. Entre eles, Seu Benedito de Alto da Serra. Reencontrei jovens que até ontem eram crianças e que hoje representam suas comunidades e reafirmam o compromisso e a esperança de um mundo digno.


Foto: Acervo KOINONIA

Ivone Bernardo, presidenta da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ) – declarou que mesmo com todo o processo de perdas de direitos e de invisibilização que as comunidades quilombolas são vítimas, a resistência e a esperança continuarão sustentando a luta quilombola, continuarão na articulação pela regularização de seus territórios e pela manutenção da vida coletiva.

Foto: Acervo KOINONIA

No final do dia de Vigília, o recado foi dado e o jongo foi cantado pela comunidade do Bracuí reverenciando a ancestralidade. Enquanto isso, no quilombo da Rasa, Tia Eva estava lá, presente e resistindo.

Mesmo com toda a tentativa de apagar, esconder e negar os quilombos, os quilombolas continuam a resistir com suas raízes profundas, cada vez mais capazes de passar por tempos difíceis.
J
Pela dignidade, pelas comunidades quilombolas!

Foto: Acervo KOINONIA




Ana Gualberto - Historiadora - Mestranda em Cultura e Sociedade – UFBA Editora do Observatório Quilombola Coordenação – Assessoria a comunidades negras tradicionais




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

S.O.S. Quilombo Sacopã

É com grande honra que apresento aos leitores do Observatório Quilombola coluna“Caderno de Campo”, escrita por mim e Ana Gualberto.

Nosso objetivo aqui é dividir com vocês um pouco de nosso trabalho junto as comunidades remanescentes de quilombo. Atualmente atuamos basicamente nos estados do Rio de Janeiro e Bahia, mas de forma geral, nos preocupamos em acompanhar a discussão da temática no campo nacional e internacional.

A primeira página desse caderno será dedicada ao quilombo Sacopã. Localizado no bairro nobre da Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, foi a primeiro quilombo urbano no município certificado pela Fundação Cultural Palmares (2004). Em 2012, através da Lei 5503, foi declarado pela prefeitura como Área de Especial Interesse Cultural (AEIC) e, dois anos mais tarde (2014), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária(INCRA) entregou a Portaria de Reconhecimento do Território, último passo antes da titulação definitiva que até agora, não aconteceu.

Foto: Daniela Yabeta (setembro/2014) – Momento da entrega da portaria


A presença da família Pinto na ladeira do Sacopã remonta a década de 1920, com a chegada de Manoel Pinto Júnior, sua mulher Eva Manoela da Cruz e seus filhos. O casal, proveniente de Minas Gerais, era descendente de ex-escravizados que viviam nas fazendas da região. Após a abolição da escravidão e o declínio de produção nas fazendas, a família começou a migrar em busca de oportunidades de trabalho. Depois de passarem um tempo em Nova Friburgo, mais precisamente no distrito de Amparo, chegaram ao Rio de Janeiro, onde Seu Manoel começou a trabalhar para a família Darke de Matos, proprietária de grande parte da área entre o Morro da Catacumba e a Fonte da Saudade.

De acordo com a memória dos quilombolas, nessa época, a Ladeira do Sacopã era uma trilha perigosa e com muitos trechos em pedra. Na década de 1960, durante o governo de Carlos Lacerda (1960-1965), começou a ser a implementada a política de remoção de favelas e a Lagoa passou a ser um local de grande interesse imobiliário. Dona Eva ajudava no orçamento da família vendendo quentinhas para os operários que trabalhavam nas construções das proximidades.

Em 1975, ameaçado pelas expulsões que rondavam a região, Seu Manoel impetrou uma ação de usucapião, reivindicando a posse do território que ocupava há quase 50 anos. Na década de 1980, incentivados pelos filhos José Luiz Pinto Júnior e Maria Laudelina de Freitas, conhecidos respectivamente como Luiz Sacopã e Tia Neném, além de servirem comida, transformaram o local num ponto de encontro para rodas de samba.

Diante da negativa do direito de propriedade individual do território e das constantes ameaças de expulsão, a Família Pinto tentou obter a titulação da área como remanescente de quilombo. A luta segue até hoje!

Essa trajetória de resistência chamou atenção do jovem cineasta (e meu irmão!) Diogo Yabeta, aluno do curso de graduação em Cinema na Universidade Estácio de Sá. No segundo semestre de 2015, no âmbito da disciplina Prática Documental, ministrada pelo professor Dermeval Netto, Diogo escolheu produzir um documentário sobre o quilombo Sacopã. Com relação ao motivo da escolha, ele declarou: 

“A primeira vez que estive no quilombo do Sacopã foi em 2012, quando tive a oportunidade de filmar uma entrevista realizada com o quilombola Adriano Lima, da Ilha da Marambaia, na qual ele contava sua atuação na luta pela titulação do território. Depois, eu retornei em 2014, no momento em que o INCRA entregou a Portaria de Reconhecimento do Território Quilombola do Sacopã. Eu fiquei encantado com o lugar e busquei mais informações sobre a trajetória daquela comunidade. Temos quatro quilombos certificados pela Fundação Cultural Palmares no município do Rio de Janeiro e pouca gente conhece a história dessas comunidades e as lutas que enfrentam para continuarem vivendo no território que habitam há várias gerações. A ideia surgiu e eu procurei o Luiz Sacopã, que topou na hora”.

No mês passado, o documentário Quilombo Sacopã foi selecionado para a I Mostra Jovens.Mov. Produzida pelos alunos do curso de Produção Cultural do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ – Campus Nilópolis), a mostra teve como principais objetivos divulgar a produção jovem e independente no estado do Rio de Janeiro e fomentar a discussão sobre temas do cenário atual de produção audiovisual independente. Uma excelente iniciativa que contou com o apoio do Centro Cultural da Justiça Federal para a realização do evento.

Quilombo do Sacopã foi exibido no dia 27 de julho e na plateia, Cláudio Freitas (filho de Dona Neném) e Luíz Sacopã foram prestigiar o evento. O júri popular escolheu seis documentários para a final, realizada no dia 28 de julho. Além do documentário de Diogo Yabeta, também foram para final os curtas: Meio-Fio, Pau de Selfie, Ti Bum! Já é? Dia de Cosme e Damião, e o grande vencedor foi BH no Ritmo da Luta.

                                                         Centro Cultural da Justiça Federal

Dez dias depois do festival, quando planejávamos uma exibição do documentário no quilombo Sacopã, recebi a seguinte notícia divulgada no Blog Mamaterra: a Secretaria de Fazenda do Município penhorou o carro e os bens do quilombola Luiz Sacopã (73 anos) devido a supostas dívidas de trinta anos atrás. Por conta das Olimpíadas, o prefeito não pode receber as lideranças quilombolas, mas seu secretário prometeu se inteirar sobre o assunto. Enquanto isso, a Polícia Militar montou um posto móvel com soldados na entrada do quilombo.

No próximo dia 20 de agosto, a Rádio Mamaterra, o SOS Racismo Brasil e diversos grupos de direitos humanos estarão presentes no quilombo prestando solidariedade a comunidade. Que tal aproveitar e dar uma passada por lá também? O endereço é esse aí da foto: Ladeira do Sacopã, 250.

Foto: Daniela Yabeta (setembro/2014)


Para finalizar essa primeira página do caderno, preciso declarar que diferente do que muitos dizem por aí, não acredito que agosto seja o mês do desgosto. Para mim é o mês da revelação, da transformação, das renovações e de muita fé. Por isso, acho que nossa coluna começa com o pé direito!

Além de nós, que o grande orixá Omolu, senhor do mês de agosto, e todos os ancestrais quilombolas estejam presentes no próximo sábado na comunidade. Luiz Sacopã, estamos com você!



Daniela Yabeta - Historiadora - Pós-Doutoranda em História (UFF-FAPERJ) - Editora da Revista do Observatório Quilombola 

Encontro de Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro

Entre os dias 10-12 de agosto, estive em mais um Encontro das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro. Este foi o quinto encont...