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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Nota de pesar pelo falecimento de Flávio Gabriel Pacífico dos Santos

As páginas do Caderno de Campos dessa semana estão repletas de tristeza. No dia 19 de setembro, Flávio Gabriel Pacífico dos Santos (36), mais conhecido como "Binho do Quilombo", foi brutalmente assassinado no município de Simões Filho (BA). Deixamos aqui registrado nossa solidariedade a toda comunidade quilombola de Pitanga dos Palmares. 

Para quem não lembra, Binho foi o responsável por buscar ajuda para Dona Dandinha, que precisava de cadeira de rodas. Devido a sua mobilização, começamos uma campanha para arrecadar fundos e possibilitar uma qualidade de vida melhor para ela, grande referência do samba de roda na comunidade de Pitanga dos Palmares. 

De janeiro até setembro de 2017, nove quilombolas foram assassinados no estado da Bahia. Além de Binho de Pitanga dos Palmares, em agosto houve uma chacina no quilombo de Iúna (Lençois). Na ocasião, foram mortos: Adeilton Brito de Souza, Gildásio Bispo das Neves, Amauri Pereira Silva, Valdir Pereira Silva, Marcos Pereira Silva e Cosme Rosário Conceição. Em julho, José Raimundo de Souza Júnior, do quilombo da Jibóia (Antônio Gonçalves), foi executado em seu local de trabalho e Lindomar Fernandes Martins, outro quilombola de Iúna, foi encontrado morto na estrada que dá acesso a comunidade. 

Até agora, as notícias que temos é de que ninguém foi responsabilizado por esses crimes. 

Além de uma grande liderança local, Binho era músico. Deixamos aqui registrado sua composição "Música do Pilão" em homenagem a Dona Dandina. 

Binho do Quilombo, para sempre presente! 




Binho do Quilombo


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Dona Dandinha parte II - a entrega da cadeira de rodas no quilombo Pitanga dos Palmares (BA)

Hoje vamos contar mais um capítulo da história de Maria Cândida dos Santos, conhecida como Dona Dandinha - a matriarca quilombola de Pitanga dos Palmares. Vocês conheceram a história dela no texto publicado por Daniela Yabeta no último dia 03 de abril. Para relembrar, basta clicar aqui.

Dona Dandinha foi diagnosticada com DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, o que torna sua respiração muito difícil. Além do oxigênio, fornecido pelo SUS – Sistema Único de Saúde, ela também necessitava de uma cadeira de rodas para melhorar sua qualidade de vida.

Ficamos sabendo da necessidade da cadeira de rodas no mês de março, através de uma mensagem do Flávio Pacífico, presidente da Associação Quilombola de Pitanga dos Palmares. A partir daí, iniciamos a campanha através de uma vaquinha online. Foi um sucesso!

No dia 18 de maio, uma quinta-feira chuvosa em Salvador, sai do bairro da Federação, onde moro, com a missão de concretizar uma ação coletiva, que contou a participação de colaboradores de diversas localidades. 

A caravana foi composta por três pessoas: eu, a jornalista Ivana Flores (que aceitou a missão de fazer as imagens) e Carlos, nosso uberista de fé. Seguimos rumo a comunidade quilombola de Pitanga do Palmares, localizada em Simões Filho, região metropolitana de Salvador, para entregarmos a cadeira de rodas. 

Embora o quilombo seja relativamente próximo a Salvador, eu não conhecia nada do lugar, então, fomos de coração aberto para tudo. Durante a viagem de pouco mais de uma hora, falamos sobre a urbanização, os desafios de morar nas proximidades de rodovias, conjecturamos sobre como seria a configuração comunitária, e principalmente, em como seria a reação de Dona Dandinha com a entrega de seu presente.

Foi então que descobri que Pitanga dos Palmares é cortada por uma rodovia, que como todos nós sabemos ou podemos imaginar, produz um impacto muito maior do que é visível. Sempre que isso acontece, é fundamental reforçar as conexões históricas, culturais e sociais que mantem a identidade coletiva do grupo. 

Além da rodovia, encontramos algo que, nestes meus quase 15 anos de andanças por comunidades quilombolas, nunca encontrei: um presídio que foi construindo em 2002 nas terras da comunidade.

Como isso é possível? Que tipo de governo constrói um presídio numa área coletiva de preservação de modo de vida diferenciado? Quais impactos isso leva a vida dos quilombolas? E das mulheres? Mil questões passaram pela minha cabeça.

E aí, chegamos na Capela de São Gonçalo, casinhas coloridas e muitas árvores! Conhecemos o Flávio Pacífico e ele nos levou até uma linda casinha, onde na varanda, sentada numa cadeirinha estava ela, Dona Dandinha, que nos recebeu com um sorriso aberto! 

Casa Dona Dandinha - Foto: Ivana Flores

Foi difícil segurar e emoção de ouvir: “Oi, minha filha! ”. Com a voz falhada, a matriarca da comunidade estava à espera do carinho que veio de longe. Me senti com muitos braços, pois eu a estava abraçando por todas as pessoas que de longe, se solidarizaram com a situação de vulnerabilidade dela.

Ana Gualberto e Dona Dandinha - Foto: Ivana Flores

Mas vamos a outras coisas que rapidamente soubemos durante a visita à comunidade e através de nossa conversa com o Flávio.

Existe a casa do samba! Que é o memorial da cultura da comunidade. Lá é onde guardam os instrumentos do samba de viola, do qual ele hoje é o violeiro. Guardam também o Boi do Bumba Meu Boi.

Memorial de Cultura - Foto: Ivana Flores


A comunidade é devota de São Gonçalo e adivinhem quem é a principal devota? Ela mesma: Dona Dandinha! Mesmo doente ele ainda pede para que seus familiares e cuidadores ascendam velas para São Gonçalo, São Jorge e outros santos de sua devoção.

Guardam também o presépio e as palhas de são gonçalinho que é uma planta de grande prestígio dentro dos terreiros de candomblé de nação Ketu, pois está ligado ao orixá Oxossi. Esta planta é usada em uma festividade chamada “Queima da palhinha” que acontece de dezembro a janeiro.

Flávio Pacífico e o presépio - Foto: Ivana Flores

Na comunidade também existe (e resiste) um Ilê Axé, mesmo com a chegada de muitas igrejas. Segundo Flavio, hoje são 14 igrejas evangélicas diretamente em contato com a comunidade.

Falamos também sobre as lutas do quilombo e sobre as relações com o governo estadual da Bahia, que tem apoiado algumas ações, principalmente no que se refere a produção agrícola e comercialização. Quanto ao governo municipal, de acordo com os quilombolas, ignoram a existência da comunidade.

Foi uma visita rápida que deixou aquele gostinho de quero mais! E claro, assim que eu souber mais coisas sobre a comunidade, vou compartilhar com vocês.

Por hoje gostaria de registrar o momento de amor que vivenciei através da ação de muitas pessoas. Sintam os beijos e o sorriso de Dona Dandinha, além de meu sentimento de esperança e gratidão!!!!


Ana Gualberto
Historiadora - Metranda Cultura e Sociedade UFBA 
Editora do Observatório Quilombola



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Dona Dandinha e o quilombo Pitanga dos Palmares (BA)

Faz tempo que eu estou tentando voltar com a nosso Caderno de Campo. Foram várias as ideias que eu troquei com minha parceira Ana Gualberto sobre o que escrever para abrir o ano de 2017, mas o danado do texto nunca saia.

Entre lá e cá, colocando a leitura dos meus e-mails em dia, me deparei com uma mensagem encaminhada pelo antropólogo José Augusto Laranjeiras Sampaio para o grupo GT Quilombos, do qual faço parte. A mensagem original foi enviada por Sheila Brasileiro e diz o seguinte:

“Olá, pessoal!Dona Dandinha, a simpática senhora das fotos abaixo, é uma das fundadoras do quilombo Pitanga dos Palmares, situado em Simões Filho. Ela está muito debilitada e necessita com urgência de uma cadeira de rodas. Pode ser usada. Contato: Flávio Pacífico ("Binho do quilombo", presidente da Associação Quilombola de Pitanga dos Palmares)”

Dona Berna e Dona Dandinha: Simões On Line News

Ao tomar conhecimento da situação de Dona Dandinha, entrei em contato com o Flávio Pacífico por e-mail e whatsapp. Perguntei se eles haviam conseguido a cadeira de rodas para nossa ilustre quilombola e ele me informou que infelizmente não.

Na mesma hora, mandei uma mensagem para Ana Gualberto em Salvador e propus que fizéssemos uma vaquinha virtual para arrecadar a grana e comprar uma cadeira de rodas para Dona Dandinha. Para quem quiser contribuir, ainda dá tempo. Aqui está o link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/cadeira-de-rodas-para-dona-dandinha

Dona Dandinha – Simões On Line News

A partir da história de Dona Dandinha fui buscar mais informações sobre o quilombo de Pitanga dos Palmares, localizado no município de Simões Filho (BA).

De acordo com os dados da Fundação Cultural Palmares, existem três comunidades certificadas na cidade: 1) Dandá (2002); 2) Pitanga dos Palmares (2004); 3) Rio dos Macacos (2011).

Sobre o quilombo de Dandá, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu a comunidade quilombola como locação para a filmagem de um documentário (Brazil: The StoryofSlavery) sobre a atual situação dos descendentes de escravizados. A iniciativa faz parte do projeto 2015-2014 – Década Internacional dos Afrodescendentes”.

O quilombo de Rio dos Macacos é o mais famoso da região de Simões Filho. Isso por conta do conflito que os quilombolas vivem com a Marinha do Brasil. Em 2012, um dossiê de Violações de Direitos Humanos foi apresentado na Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização dos Estados Americanos (OEA) denunciando as arbitrariedades cometidas contra os quilombolas. Para conhecer melhor o caso, vale a pena assistir do documentário “Quilombo Rio dos Macacos”.

Com relação ao quilombo Pitanga dos Palmares, além de certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2004, a comunidade iniciou o processo administrativo pela titulação de seu território no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em 2008. Porém, até hoje, o processo ainda não foi finalizado.

Pitanga dos Palmares destaca-se através de dois grupos de mulheres: as artesãs que trabalham com a piaçava e as bordadeiras que produzem peças maravilhosas em ponto de cruz.

Oficina de arte com piaçava – Comunidade Quilombola Pitanga dos Palmares

Maria Cândida dos Santos, nossa Dona Dandinha (81 anos), é uma mulher quilombola guerreira. Durante muito tempo, ela sobreviveu através da produção manual do azeite de dendê e é considerada pela comunidade como uma das “guardiãs” da cultura local. Flávio Pacífico, o Binho do Quilombo, compôs uma música em sua homenagem chamada Música do Pilão.

Dona Dandinha foi casada com Matias dos Santos, o grande mestre do Samba de Viola da localidade. Nas festas de São Gonçalo do Amarante, o santo dos agricultores e padroeiro da comunidade, o samba de viola anima a todos. O grupo é composto por 18 sambadeiras e 12 tocadores. Dona Dandinha era a sambadeira mais velha da comunidade.

Infelizmente, ela foi diagnosticada com DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, o que torna sua respiração muito difícil. Dona Dandinha está tentando receber o oxigênio pelo SUS – Sistema Único de Saúde, mas enquanto a liberação não chega, os familiares estão pagando com seus recursos. Além do oxigênio, ela também necessita de uma cadeira de rodas para melhorar sua qualidade de vida. Diante do tanto que essa mulher representa, acho que o mínimo que podemos fazer é ajudá-la. Por isso, essa primeira página do Caderno de Campo de 2017 é dedicada a ela.

Tenho fé nos orixás, em São Gonçalo do Amarante e conto com a ajuda de vocês. A cadeira de rodas vai chegar em Pitanga dos Palmares para Dona Dandinha!

Até mais!

Dona Dandinha – Casa do Samba Dona Alvina


Daniela Yabeta - Pós-Doutoranda em História (UFF - FAPERJ); Editora da Revista do Observatório Quilombola

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quilombolas do Baixo-Sul na 14ª Feira Cultural e Saúde

Como a base da motivação desta coluna são nossas experiências cotidianas junto às comunidades quilombolas com as quais dialogamos, trago para vocês algumas observações sobre o intercâmbio realizado nos dias 23 e 24 de setembro entre quilombolas e candomblecistas na 14ª Feira Cultural e de Saúde.



Na região do baixo-sul da Bahia, o projeto Comércio com Identidade – uma parceria de KOINONIA com o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop), financiada pela Secretaria do Trabalho Emprego, Renda e Esporta da Bahia - atende três comunidades quilombolas localizadas no município de Camamu: Dandara dos Palmares, Quilombo do Barroso e Quilombo Jatimana/Boa Vista.

Este projeto, além de apoiar a ampliação de redes femininas e mistas de economia solidária e comércio justo, busca garantir os direitos dessas mulheres que vêm enfrentando situações graves de violência, complicadas pela baixa efetividade local das políticas públicas de redução das desigualdades de gênero. A distância das instituições públicas que fazem parte da rede de atendimento às mulheres em situação de violência é um dos principais problemas. O investimento principal do projeto é no amplo reconhecimento da identidade quilombola e das desigualdades entre homens e mulheres, com um duplo objetivo: consolidar o sentido dessas redes femininas locais como meio de tornar o comércio mais justo, aumentar a presença feminina; e estimular a participação política delas a partir do debate de suas especificidades identitárias e demandas políticas (como, por exemplo, poder contar com a rede de atendimento mesmo em áreas rurais afastadas).

Em Salvador, o Ilê Axé Iyá Nasso Oká, Terreiro da Casa Branca - como é mais conhecido -, é o primeiro Monumento Negro tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1986. Segundo a tradição oral, os primeiros axés do candomblé ketu-nagô teriam sido plantados, no início do século XIX, na Ladeira do Berquió, próxima da Igreja da Barroquinha, centro de Salvador. Na segunda metade do século XIX, o terreiro se transferiu para o Engenho Velho da Federação, então subúrbio da cidade, onde hoje se encontra. Esta casa tem suas ações sociais realizadas por sua associação civil e pelo Espaço Cultural Vovó Conceição, que tem com finalidade apoiar iniciativas culturais de resgate e fortalecimento da cultura negra, voltada aos costumes e religiosos tradicionais do Candomblé. Dessa junção nasceu a Feira de Saúde, que se tornou Feira Cultural e de Saúde, e que em 2016 chega a 14º edição. Esta ação oferece serviços de saúde e cultura diversa, sendo realizada na Praça de Oxum, dentro do espaço do terreiro.

Organizar e promover espaços de intercâmbio está na nossa concepção de educação popular e processos formativos de desconstrução de preconceitos e estereótipos, bem como na prática de estreitar laços entre movimentos e grupos sociais distintos. Neste sentido, nos propomos a mais uma vez criar estes laços, tendo como pano de fundo principal a produção das comunidades quilombolas e de terreiros.



Sair de uma comunidade que fica a mais de 20 quilômetros do centro do município de Camamu e se deslocar para Salvador, que são mais ou menos 6 horas de viagem, já é por si só uma aventura. Agregue a isso ir participar de uma feira que está na sua décima quarta edição! Bom, essa foi a experiência vivenciada pelas 16 mulheres quilombolas das comunidades de Barroso e Dandara que participaram da Feira de Cultural e de Saúde no Terreiro da Casa Branca.

Mesmo sendo parte das práticas do trabalho de KOINONIA o diálogo sobre combate aos preconceitos discriminatórios e a intolerância, estar no espaço sagrado de outra religiosidade é desafiador, e foi assim que desceram da van, com toda a sua produção da agricultura familiar, de geleias, dendê, pimentas, licores e outros produtos beneficiados e com os olhos bem abertos para captar o máximo desta experiência.

A recepção calorosa de Equede Sinha foi fundamental para o acolhimento e a constatação de que os elementos que nos unem são muito maiores do que os que nos separam: estávamos diante de uma ação construída por uma comunidade religiosa que promove direitos e diálogo, além de cultura. E essa experiência é muito semelhante com o que estas mulheres vêm construindo na Feira Agroecológica das Mulheres Contra a Violência (já relatada aqui no Caderno de Campo – Colhendo esperança: feira das mulheres no Baixo-Sul).



Conhecer os espaços com os passos guiados pelo Ogã de Oxossi e Diretor Executivo de KOINONIA Rafael soares de Oliveira, foi outro momento que marcou a experiência vivenciada, conhecer para solidificar o respeito e destruir os preconceitos.




A comercialização e os diálogos ocorreram durante todo o dia, com intervalos para apresentações culturais, mesas de debate, abraços, sorrisos, acarajé e caruru.

As falas na saída reafirmaram que estamos no caminho certo. Da comunidade quilombola do Barroso, Ana Carine declarou: “Nossa, eu amei! Aqui é lindo e fui muito bem tratada”. Enquanto Maria fez questão de registrar a importância de levar a família da Casa Branca para conhecer o quilombo: “Mas tem que levar eles lá!”. Da comunidade de Dandara dos Palmares, Augusta disse: “Vou guardar para sempre este dia”.

Mesmo com todos os golpes oriundos da política, seguimos na construção de pontes e na junção das lutas por uma sociedade mais justa e que acolha a todos com suas especificidades. Continuamos na luta!

Ana Gualberto - Historiadora; Mestranda em Cultura e Sociedade – UFBA; Editora do Observatório Quilombola; Coordenação – Assessoria a comunidades negras tradicionais.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

UFF/UNEB - Relatos de experiência da prática docente

Depois de três semanas de atraso, finalmente consegui voltar ao nosso Caderno de Campo. Durante esse período, dividi meu tempo basicamente em duas frentes de trabalho diferentes: o retorno às aulas na Universidade Federal Fluminense (UFF) e a realização de um seminário temático na Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Em ambos espaços, discutimos sobre a luta pela garantia dos direitos quilombolas e políticas públicas de ações afirmativas. São essas experiências que hoje trago para vocês.

Com relação às aulas na UFF, é uma alegria muito grande dividir a disciplina “Dimensões da escravidão: modernidade, ilegalidade e apropriações contemporâneas” com o historiador (meu amigo e vizinho de Irajá) Thiago Campos. Eu conheci o Thiago há dez anos atrás, quando eu cursava a graduação na UFRJ e ele na UFF. Nessa época descobrimos, cada qual no seu canto (ele na UFF e eu em KOINONIA), o universo mágico das comunidades remanescentes de quilombo do sul-fluminense. Foi através da experiência junto a esses grupos que embarcamos na viagem rumo ao século XIX. Eu voltei dessa viagem para o tempo presente, ele segue firme na jornada. Sua tese, “A indiscrição como ofício: o complexo cafeeiro revisitado (Rio de Janeiro, c.1830 – c.1888)", defendida no Programa de Pós-Graduação em História da UFF, foi premiada pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional e pela própria UFF como melhor tese de 2015. Vale a pena a leitura!

Nosso curso é dividido em duas partes. A primeira será ministrada pelo Thiago e consiste na análise da reestruturação da escravidão africana no Atlântico ao longo do século XIX. Na segunda, ministrada por mim, trataremos das apropriações contemporâneas desse processo através da luta pela titulação dos territórios remanescentes de quilombo. Para nossa surpresa, a turma lotou!

Entre as atividades extraclasse, estamos organizando o Seminário Tráfico Negreiro e Estado Nacional no Mundo Atlântico (STENA) – Edição Especial Mangaratiba, que ocorrerá no dia 20 de outubro na UFF. Para essa sessão do STENA contaremos com as apresentações de Fernanda Pinheiro e Raquel Terto: “Memória e legado material do tráfico de escravos e dos africanos no Rio de Janeiro – da chegada clandestina às apropriações contemporâneas do passado” e do próprio Thiago: “O comércio ilegal de africanos na montagem do complexo cafeeiro fluminense: o caso Breves”. Trata-se de um evento aberto, além dos nossos alunos inscritos, quem estiver interessado é só chegar. Estão todos convidados.




O seminário na UNEB foi fruto de mais uma parceria minha com a grande historiadora (e minha amiga!) Ana Gualberto. Por aqui, Ana dispensa apresentações, pois é ela quem assina as páginas desse caderno comigo. Começamos a trabalhar juntas em 2005, quando estávamos na graduação (Ana foi aluna da UERJ de São Gonçalo) e desde então, ela tem sido uma grande inspiração para mim. Principalmente no que se refere a militância junto às comunidades remanescentes de quilombo.



Eu e Ana Gualberto – Foto: Daniela Yabeta

Viajamos para a cidade de Cipó, localizada no sertão da Bahia, no dia 16 de setembro e ficamos por lá até o dia 20. O município é conhecido por conta de suas águas termais. A busca por tratamentos na estância hidromineral de Cipó impulsionou o turismo e promoveu a emancipação do município na década de 1930. O Grande Hotel, inaugurado por Getúlio Vargas em 1952 (hoje desativado), é o retrato vivo dos tempos áureos desse pequeno oásis baiano.

No entanto, não foram as águas termais de Cipó que nos levaram até lá. Eu e Ana realizamos o seminário temático “Quilombos contemporâneos: debates sobre a inclusão da temática no currículo escolar” para professoras da educação básica que atualmente cursam Pedagogia pela Plataforma Freire no campus da UNEB, localizado na cidade. Uma experiência espetacular!




Turma de Pedagogia PARFOR/UNEB – Foto: Daniela Yabeta

Durante três dias discutimos sobre diáspora africana, relações étnico-raciais e educação quilombola. No município de Cipó existem atualmente três comunidades remanescentes de quilombo certificadas pela Fundação Cultural Palmares desde 2005: Várzea Grande, Caboge e Rua do Jorro. Debates em torno da aplicação da Lei 10.639 (que torna obrigatório o ensino e História e Cultura Afro-Brasileira) e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica tornaram-se ainda mais urgentes para essas professoras.

Um dos melhores momentos do seminário foi nossa visita ao quilombo do Caboge. Ao chegarmos na comunidade, conhecemos o bar da Marlene (presidenta das três associações quilombolas), nos divertimos com a cascata construída por ela e tivemos o privilégio de conversar com Dona Helena, sua mãe. Ela nos contou sobre os tempos glamorosos do turismo na cidade, quando caminhava mais de três quilômetros – do sítio onde morava até o centro de Cipó – para participar das festas que ocorriam no cassino e nos salões do Grande Hotel. Contou também sobre a dura infância no campo, muito trabalho e pouca chance de frequentar a escola.



Cascata do quilombo do Caboge – Foto: Daniela Yabeta

Sobre as atividades realizadas durante o seminário, as professoras organizaram pequenas peças teatrais nas quais encenaram situações de racismo que as crianças quilombolas vivem no cotidiano escolar. Após relatarem suas experiências, pensamos no desafio de mudar essa realidade dentro da sala de aula. Diante da provocação, as professoras produziram planos de aula para serem trabalhados na Educação Básica onde discutem, entre outros temas, a valorização da cultura quilombola e a contribuição dessas comunidades para o desenvolvimento do município de Cipó. Destacaram a importância de trabalharem uma “outra” história da cidade: das águas termais para as comunidades negras rurais. Esse material será publicado na Revista do Observatório Quilombola de novembro de 2016. Vocês não perdem por esperar! Por ora, deixo aqui a poesia escrita pela professora Valnice Santos Souza que traduz bem o espírito do nosso encontro.


Trabalhar com Ana e Thiago é um tremendo presente. O tempo passou, mas o prazer pela pesquisa e o gosto pela prática docente só fez aumentar nesses dois. Em tempos difíceis, ter a oportunidade de dividir com eles esses momentos funcionou como uma injeção de ânimo para mim. Que venham mais experiências como essas!

Daniela Yabeta - Historiadora - Pós-Doutoranda em História (UFF-FAPERJ) - Editora da Revista do Observatório Quilombola 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Colhendo Esperança: Feira das Mulheres do Baixo Sul

Hoje trago para vocês um dia que me serviu para recuperar as forças e a esperança nas mudanças de nossa sociedade. Em meio ao ambiente de golpe e perdas, precisamos mais que nunca celebrar e compartilhar coisas boas.





Foto: Joice Santiago

No último dia 2 de setembro aconteceu a quinta edição da já tradicional Feira Agroecológica das Mulheres Contra a Violência, na cidade de Camamu (BA), com apoio de várias organizações e movimentos sociais. Esta feira surgiu da necessidade das mulheres negras quilombolas, agricultoras, pescadoras, marisqueiras e extrativistas em afirmar sua capacidade produtiva, conquistar espaço para realizar comercialização e defender suas bandeiras. A bandeira que foi abraçada por este coletivo desde seu início, foi e é algo que assola a nós todas, de forma direta ou indireta: a violência contra as mulheres.

Escrever sobre a experiência de mais uma edição desta feira me coloca em um momento de nostalgia e esperança, pois começamos com a participação das comunidades de Camamu, aproximadamente 80 pessoas, hoje, na quinta edição, tivemos aproximadamente 300 agricultoras e a circulação de mais de 500 pessoas. Então é falar de dentro deste movimento que junta mulheres dos movimentos sociais, das organizações da sociedade civil, sindicatos e demais grupos, e nos coloca como companheiras na construção das mudanças.


Foto: Joice Santiago

A feira de agroecológica de mulheres surgiu em 2012 com o objetivo de manter essas comunidades atentas à questão da desigualdade de gênero em suas diferentes expressões, criando, simultaneamente, oportunidades para que as mulheres – muitas vezes excluídas da partilha dos dividendos da pequena produção agrícola – pudessem comercializar bens que são fruto de seu trabalho. Em 2014, produzimos um vídeo sobre a feira que pode ser acessado aqui.

Infelizmente o problema da violência contra as mulheres na região do baixo sul da Bahia ainda está longe de ser superado – ver “Narrativas sobre violência contra mulheres no Baixo Sul da BA”. Embora as cidades da região não estejam nos mapas de violência, no cotidiano das mulheres a violência ainda é muito presente. O distanciamento dos centros urbanos, a falta de atendimentos de qualidade tanto nas delegacias, como os aparelhos públicos de atendimento as mulheres, contribuem para que estes casos não sejam registrados e passem a alimentar os índices coletados em nosso país. Só exemplificando, no início deste ano tivemos uma companheira assassinada e violentada numa comunidade, além das constantes narrativas de violência física, patrimonial e principalmente psicológica. Mas não estar sozinha ajuda e muito...

Temos durante estes anos criado espaços de diálogo, acolhimento e apoio entre as mulheres e essa feira, que já entrou para calendário da cidade, é o ápice da publicização do que temos feito. É na feira que cada comunidade traz além de sua produção, suas apresentações culturais, suas falas motivadoras, seus sonhos de autonomia econômica se mostram possíveis e palpáveis. A feira é muito mais do espaço de venda, é espaço de troca e de esperança.


Foto: Joice Santiago


Muito samba de roda, muitos sorrisos partilhados, muitos sonhos visitados e explicitados. Esse é o resumo de mais uma feira das mulheres. Aproveito para finalizar com o trecho de uma música cantada pelas mulheres da comunidade quilombola de Jetimana, localizado no município de Camamu (BA): “... acabou a brincadeira, as mulheres de hoje em dia já mandam é na casa inteira”.


Ana Gualberto - Historiadora; Mestranda em Cultura e Sociedade – UFBA; Editora do Observatório Quilombola; Coordenação – Assessoria a comunidades negras tradicionais


Encontro de Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro

Entre os dias 10-12 de agosto, estive em mais um Encontro das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro. Este foi o quinto encont...