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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

8º Encontro Escravidão & Liberdade no Brasil Meridional

Vocês sabiam que ainda hoje é muito comum pensarem que não existiu escravidão no sul do Brasil? Pois é, por mais que os historiadores tenham trabalhado em pesquisas desmistificando essa questão, de forma geral, grande parte da população ainda acredita que a terra da Gisele Bündchen e da Oktoberfest não sofreu a violência da escravidão. Acontece que, na realidade, a história foi bem diferente. Para vocês terem uma ideia, de acordo com dados da Fundação Cultural Palmares, existem hoje no sul do Brasil 141 comunidades remanescentes de quilombo certificadas: 94 no Rio Grande do Sul, 12 em Santa Catarina e 35 no Paraná.

Foi pensando nessa questão que resolvi divulgar aqui, no nosso Caderno de Campo, o 8º Encontro de Escravidão & Liberdade no Brasil Meridional, que “tem por objetivo reunir pesquisadores que se dedicam aos temas da escravidão, da liberdade e do pós-abolição na região sul do país, bem como aqueles que, tratando de temas correlatos ou estudando outros espaços, possa estabelecer conexões com a região ou com os temas privilegiados no evento”.

A primeira edição do encontro aconteceu em setembro de 2003, na cidade de Castro (PR) e desde então, o evento tem se destacado por reunir os maiores especialistas sobre a temática.




Em 2009, tive a oportunidade de participar do 4º encontro, realizado na cidade de Curitiba (PR), quando apresentei parte da minha pesquisa de mestrado sobre o tráfico ilegal de africanos escravizados na Ilha da Marambaia: “Tudo chegou sobrevivente num navio – A Auditoria Geral da Marinha contra o tráfico de africanos livres pós 1850 no Rio de Janeiro”. Na ocasião, também pude conhecer o trabalho de Marcia Naomi Kuniochi e Claudia Daiane Molet, “Uma comunidade quilombola na rota dos tropeiros: quilombolas do Limoeiro”. 




Entretanto, nos encontros anteriores, que ocorreram nos anos de 2005 (Porto Alegre, RS) e 2007 (Florianópolis, SC), outras pesquisas maravilhosas sobre a questão quilombola também foram apresentadas. Destaco aqui os seguintes textos: 1) “Entre a serra e o litoral: fugas e quilombos na fronteira leste do Rio Grande do Sul e Santa Catarina”, de Luana Teixeira; 2) “Aspectos constituintes da história da comunidade quilombola presente no interior de Giruá, RS”, de Elci Deloss Tolomini, Carla Regina Wegner Copetti, Sandra Beatriz Essenberg, Savio Antônio Reginatto e Denise M. dos Santos Mello; 3) “Quilombo: africanos, índios e seus descendentes lutaram pela liberdade”, de Aldemir Fiabani; 4) “Athe a completa extinção – Quilombos em regiões florestais e a luta por liberdade no extremo sul do Brasil (Rio Pardo, séc. XIX)”, de José Paulo Eckert; 5) “Quilombo Arnesto Penna Carneiro: resistência da ancestralidade negra”, de Ana Lúcia Aguiar Melo e Dilmar Luiz Lopes.







No ano de 2011, durante o 5º encontro, participei da sessão intitulada “Comunidades negras e quilombos, ontem e hoje”. A mesa foi composta pelas seguintes pesquisas: “Comunidade quilombola de Maçambique: memória, marcadores territoriais e processos de resistência”, de Cláudio Baptista Carle e Solange de Oliveira, “Parentesco escravo e em comunidades negras rurais: um estudo de caso”, de Rosane Aparecida Rubert e Luiza Spinelli Pinto Wolff, e a primeira parte da minha pesquisa de doutorado “Marambaia versus Marinha: conflito pela titulação de um território quilombola no Rio de Janeiro”.

Em 2013, eu perdi o 6º encontro na cidade de Florianópolis (SC), mas deixo aqui registrado a pesquisa de Claudia Daiane Garcia Molet, “Casca e Limoeiro: as comunidades quilombolas no litoral negro do Rio Grande do Sul, durante o século XIX”.






Para o 8º encontro deixo aqui o convite para que todos inscrevam suas pesquisas sobre comunidades quilombolas. De acordo com a organização do evento, a inscrição de trabalhos terá duas modalidades: comunicação oral e apresentação de pôster. As propostas devem ser enviadas até dia 20 de janeiro de 2017 e o evento ocorrerá entre os dias 24/27 de maio de 2017 na cidade de Porto Alegre (RS).





Vejo vocês por lá!


Daniela Yabeta - Pós-Doutoranda em História (UFF - FAPERJ); Editora da Revista do Observatório Quilombola

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

S.O.S. Quilombo Sacopã

É com grande honra que apresento aos leitores do Observatório Quilombola coluna“Caderno de Campo”, escrita por mim e Ana Gualberto.

Nosso objetivo aqui é dividir com vocês um pouco de nosso trabalho junto as comunidades remanescentes de quilombo. Atualmente atuamos basicamente nos estados do Rio de Janeiro e Bahia, mas de forma geral, nos preocupamos em acompanhar a discussão da temática no campo nacional e internacional.

A primeira página desse caderno será dedicada ao quilombo Sacopã. Localizado no bairro nobre da Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, foi a primeiro quilombo urbano no município certificado pela Fundação Cultural Palmares (2004). Em 2012, através da Lei 5503, foi declarado pela prefeitura como Área de Especial Interesse Cultural (AEIC) e, dois anos mais tarde (2014), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária(INCRA) entregou a Portaria de Reconhecimento do Território, último passo antes da titulação definitiva que até agora, não aconteceu.

Foto: Daniela Yabeta (setembro/2014) – Momento da entrega da portaria


A presença da família Pinto na ladeira do Sacopã remonta a década de 1920, com a chegada de Manoel Pinto Júnior, sua mulher Eva Manoela da Cruz e seus filhos. O casal, proveniente de Minas Gerais, era descendente de ex-escravizados que viviam nas fazendas da região. Após a abolição da escravidão e o declínio de produção nas fazendas, a família começou a migrar em busca de oportunidades de trabalho. Depois de passarem um tempo em Nova Friburgo, mais precisamente no distrito de Amparo, chegaram ao Rio de Janeiro, onde Seu Manoel começou a trabalhar para a família Darke de Matos, proprietária de grande parte da área entre o Morro da Catacumba e a Fonte da Saudade.

De acordo com a memória dos quilombolas, nessa época, a Ladeira do Sacopã era uma trilha perigosa e com muitos trechos em pedra. Na década de 1960, durante o governo de Carlos Lacerda (1960-1965), começou a ser a implementada a política de remoção de favelas e a Lagoa passou a ser um local de grande interesse imobiliário. Dona Eva ajudava no orçamento da família vendendo quentinhas para os operários que trabalhavam nas construções das proximidades.

Em 1975, ameaçado pelas expulsões que rondavam a região, Seu Manoel impetrou uma ação de usucapião, reivindicando a posse do território que ocupava há quase 50 anos. Na década de 1980, incentivados pelos filhos José Luiz Pinto Júnior e Maria Laudelina de Freitas, conhecidos respectivamente como Luiz Sacopã e Tia Neném, além de servirem comida, transformaram o local num ponto de encontro para rodas de samba.

Diante da negativa do direito de propriedade individual do território e das constantes ameaças de expulsão, a Família Pinto tentou obter a titulação da área como remanescente de quilombo. A luta segue até hoje!

Essa trajetória de resistência chamou atenção do jovem cineasta (e meu irmão!) Diogo Yabeta, aluno do curso de graduação em Cinema na Universidade Estácio de Sá. No segundo semestre de 2015, no âmbito da disciplina Prática Documental, ministrada pelo professor Dermeval Netto, Diogo escolheu produzir um documentário sobre o quilombo Sacopã. Com relação ao motivo da escolha, ele declarou: 

“A primeira vez que estive no quilombo do Sacopã foi em 2012, quando tive a oportunidade de filmar uma entrevista realizada com o quilombola Adriano Lima, da Ilha da Marambaia, na qual ele contava sua atuação na luta pela titulação do território. Depois, eu retornei em 2014, no momento em que o INCRA entregou a Portaria de Reconhecimento do Território Quilombola do Sacopã. Eu fiquei encantado com o lugar e busquei mais informações sobre a trajetória daquela comunidade. Temos quatro quilombos certificados pela Fundação Cultural Palmares no município do Rio de Janeiro e pouca gente conhece a história dessas comunidades e as lutas que enfrentam para continuarem vivendo no território que habitam há várias gerações. A ideia surgiu e eu procurei o Luiz Sacopã, que topou na hora”.

No mês passado, o documentário Quilombo Sacopã foi selecionado para a I Mostra Jovens.Mov. Produzida pelos alunos do curso de Produção Cultural do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ – Campus Nilópolis), a mostra teve como principais objetivos divulgar a produção jovem e independente no estado do Rio de Janeiro e fomentar a discussão sobre temas do cenário atual de produção audiovisual independente. Uma excelente iniciativa que contou com o apoio do Centro Cultural da Justiça Federal para a realização do evento.

Quilombo do Sacopã foi exibido no dia 27 de julho e na plateia, Cláudio Freitas (filho de Dona Neném) e Luíz Sacopã foram prestigiar o evento. O júri popular escolheu seis documentários para a final, realizada no dia 28 de julho. Além do documentário de Diogo Yabeta, também foram para final os curtas: Meio-Fio, Pau de Selfie, Ti Bum! Já é? Dia de Cosme e Damião, e o grande vencedor foi BH no Ritmo da Luta.

                                                         Centro Cultural da Justiça Federal

Dez dias depois do festival, quando planejávamos uma exibição do documentário no quilombo Sacopã, recebi a seguinte notícia divulgada no Blog Mamaterra: a Secretaria de Fazenda do Município penhorou o carro e os bens do quilombola Luiz Sacopã (73 anos) devido a supostas dívidas de trinta anos atrás. Por conta das Olimpíadas, o prefeito não pode receber as lideranças quilombolas, mas seu secretário prometeu se inteirar sobre o assunto. Enquanto isso, a Polícia Militar montou um posto móvel com soldados na entrada do quilombo.

No próximo dia 20 de agosto, a Rádio Mamaterra, o SOS Racismo Brasil e diversos grupos de direitos humanos estarão presentes no quilombo prestando solidariedade a comunidade. Que tal aproveitar e dar uma passada por lá também? O endereço é esse aí da foto: Ladeira do Sacopã, 250.

Foto: Daniela Yabeta (setembro/2014)


Para finalizar essa primeira página do caderno, preciso declarar que diferente do que muitos dizem por aí, não acredito que agosto seja o mês do desgosto. Para mim é o mês da revelação, da transformação, das renovações e de muita fé. Por isso, acho que nossa coluna começa com o pé direito!

Além de nós, que o grande orixá Omolu, senhor do mês de agosto, e todos os ancestrais quilombolas estejam presentes no próximo sábado na comunidade. Luiz Sacopã, estamos com você!



Daniela Yabeta - Historiadora - Pós-Doutoranda em História (UFF-FAPERJ) - Editora da Revista do Observatório Quilombola 

Encontro de Comunidades Quilombolas do Rio de Janeiro

Entre os dias 10-12 de agosto, estive em mais um Encontro das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro. Este foi o quinto encont...