quinta-feira, 20 de abril de 2017

TOUR PELO SUBÚRBIO CARIOCA – Parte I: “Vicente de Carvalho”: do fazendeiro ao poeta abolicionista.

Não sei se vocês sabem, mas eu moro em Irajá (do tupi, lugar onde brota o mel), um bairro tradicional do subúrbio do Rio de Janeiro. Na verdade, moro mais especificamente em Vista Alegre, uma espécie de “sub bairro” de Irajá que não para de crescer. Ano passado, ganhamos um Polo Gastronômico (Decreto nº 41.451 de 28 de março de 2016), por conta da grande concentração de bares e restaurantes na região. 


Polo Gastronômico de Vista Alegre – Facebook Polo Gastronômico de Vista Alegre

Para quem quer conhecer, chegar por essas bandas não é tão difícil quanto muitos pensam. Temos uma linha de ônibus que faz o percurso até o Centro do Rio de Janeiro (349 – Rocha Miranda / Castelo), mas essa eu não recomendo, a gente nunca sabe o que esperar da Avenida Brasil...

Minha dica é o metrô. Por aqui, temos duas estações de fácil acesso: Irajá e Vicente de Carvalho. A estação de Irajá fica a 2,5km de distância do Polo Gastronômico e da Vicente de Carvalho 2,2km de acordo com o Google Maps. A maioria do pessoal que mora no bairro utiliza o metrô de Irajá por conta da grande quantidade de ônibus que passa por lá, mas eu prefiro Vicente – como é carinhosamente conhecida. Apesar de só ter um ônibus (629 – Irajá / Saens Pena), todos os carros têm ar-condicionado (o que é uma raridade!), e podemos saltar exatamente na porta da estação. Por isso a minha dica é essa, venham por Vicente! 


Metrô de Vicente de Carvalho – Metrô Rio

Nessa estação também temos a conexão para o BRT e o ponto final da linha 950 – Vicente de Carvalho/Vista Alegre. Em poucos minutos estarão no Polo Gastronômico tomando aquela gelada e saboreando os diversos petiscos.

E por falar em BRT, Ana Gualberto, minha parceira do Caderno de Campo, foi uma ilustre moradora do bairro, mas o prédio onde morava na Rua Engenheiro Mario de Carvalho foi desapropriado para a construção da linha.

Sobre Irajá, sabemos que até o século XVI a região era habitada pelos índios tupinambá. Mais tarde, com a chegada por portugueses, transformou-se na maior sesmaria do Rio de Janeiro e grande produtora de cana-de-açúcar. Para quem quiser conhecer mais detalhadamente a história do bairro, sugiro as seguintes pesquisas: 1) De freguesias rurais a subúrbio: Inhaúma e Irajá no município do Rio de Janeiro (MOURA, 1997); 2) Senhores e Possuidores: a construção da propriedade da terra na freguesia de Irajá (Rio de Janeiro, século XIX) (SILVA, 2013); 3) Famílias escravas no Recôncavo da Guanabara: séculos XVII e XVIII (DEMÉTRIO, 2008).

A região também é conhecida pela Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação (construída em 1644 e onde fui batizada em 1982), pelo Cemitério de Irajá (de 1895) e pelo Grêmio Recreativo Bloco Carnavalesco Boêmios de Irajá (1967) onde acontece a roda de samba Quilombo do Irajá


Igreja de Nossa Senhora da Apresentação – Blog o Bom do Rio

E sobre Vicente de Carvalho? Vocês já ouviram falar?

Pois é, sabemos apenas que o nome do bairro remete a um antigo fazendeiro da localidade e que a Estrada de Ferro Rio D´Ouro inaugurou a estação de Vicente de Carvalho, em 15 de janeiro de 1883. Hoje, além do Morro do Juramento, o bairro também se destaca pelas preciosas Adega Duas Nações e Adega D´Ouro (será alguma referência a Estrada de Ferro Rio D´Ouro?). Podem apostar, essas duas relíquias barram qualquer novidade do Polo Gastronômico. 


Jornal A Tribuna - 15 de setembro de 1911 – Hemeroteca Digital BN

Sabemos também que esse fazendeiro Vicente de Carvalho costuma ser confundido com o poeta, contista, jornalista e juiz de Direito Vicente Augusto de Carvalho (1866-1924) de Santos (SP). E é aí que a história melhora.

O Vicente de Carvalho do município de Santos (SP) era um abolicionista que encaminhava escravos fugitivos para o Quilombo Jabaquara, liderado por Quintino de Lacerda. (Para conhecer melhor a história do quilombo e seu líder sugiro a dissertação de Matheus Serva Pereira: Uma viagem possível – Quintino de Lacerda e as possibilidades de integração dos ex-escravos no Brasil.). Inspirado nessa experiência, Vicente de Carvalho escreveu “Fugindo ao Cativeiro”, um de seus mais belos poemas. Vale a pena dar uma conferida.

De acordo com sua biografia, Vicente de Carvalho sempre viveu no estado de São Paulo. Não há nenhum registro que tenha residido no Rio de Janeiro. Mas, durante muito tempo, enquanto esperava o metrô, eu desejei que o abolicionista fosse o mesmo fazendeiro do subúrbio carioca. Até que um dia eu descobri que na Praça de Vicente de Carvalho existe um busto em homenagem ao poeta santista. 





Para quem quiser conhecer outras poesias daquele que ficou conhecido como “o poeta do mar”, sugiro o livro de Cláudio Murilo Leal lançado pela Global Editora em 2005: Melhores Poemas de Vicente de Carvalho. Depois da leitura, sugiro um tour pelo bairro para conferir se o busto é mesmo do abolicionista com direito a parada para tomar uma gelada, comer bolinho de bacalhau nas adegas e fazer aquela selfie maneira. 

Daniela Yabeta - Historiadora – Pós-Doc FAPERJ/ UFF - História - Editora da Revista do Observatório Quilombola

terça-feira, 11 de abril de 2017

Debate sobre museu e Escravidão na Baixada Fluminense

Entre os dias 07 e 08 de abril aconteceu no município de Duque de Caxias (RJ) a I Jornada de Museologia Social do Rio de Janeiro: Questões Contemporâneas, com a temática “Museu e Escravidão: Patrimônio, Memória e Museologia Social”.

No dia 07 a Jornada ocorreu na Câmara Municipal, com a conferência de abertura, “Malungo, Macota, Cabula, Ubanda: solidariedade centro-africanas contra a escravidão”, proferida pelo professor Robert Slenes (UNICAMP). No dia seguinte o evento ocorreu na sede do Museu Vivo do São Bento e contou com a participação de Nielson Bezerra (MVSB/FEBF – UERJ/FABEL), Cristina Lodi (Coordenadora do desenvolvimento do Museu da Escravidão e da Liberdade), Humberto Adami (Comissão da Verdade da Escravidão/OAB), Mário Chagas (UNIRIO – Rede de Museologia Social – RJ), Mariza de Carvalho (UFF- Museu Nacional), Luciana Barreto (TV Brasil/EBC), Cláudio Honorato (IPN), Hebe Mattos (UFF), Clarissa Lima (Comissão da Verdade da Escravidão/ RJ) e Elisa Larkin(Ipeafro). 



Para quem não conhece, o Museu Vivo do São Bento é um Ecomuseu de Percurso que foi criado através da Lei nº 2224 de 2008 a partir das reivindicações dos profissionais da Educação e dos militantes culturais de Duque de Caxias. Entre as localidades visitadas nos percursos sugeridos, destacamos a Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens de Cor (século XVII), Esporte Clube São Bento (1948) e o Sítio Arqueológico Sambaqui do São Bento.

Infelizmente não pude assistir a conferência de abertura, mas no dia 08 eu estive por lá e posso garantir que o encontro foi ótimo! Sendo assim, apresentarei um pequeno relato do que pude assistir.

Sobre a Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, criada em 2014 pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Humberto Adami destacou que um dos objetivos principais da iniciativa é fomentar ainda mais o debate sobre reparação. Nesse sentido, o diálogo com a História torna-se imprescindível, pois a temática da escravidão é um campo de pesquisa muito rico no nosso país que conta com uma vasta bibliografia e uma grande quantidade de “pistas e provas”. O grande desafio seria tornar essa produção acessível ao grande público – uma questão que já é discutida no campo da História há bastante tempo! Adami também falou da importância da constituição de comissões estaduais e contou que foi graças a essa experiência que tomou conhecimento do Quilombo do Campo Grande em Minas Gerais, através do trabalho de Tarcísio José Martins. Além das comissões estaduais e municipais, Adami informou que estão previstas a implementação de comissões nos bairros de Madureira, Méier e Campo Grande, o que achei genial!

Mário Chagas (UNIRIO) falou sobre a importância do reconhecimento do debate Museu/Escravidão. Destacou que o trabalho dentro do museu, além do potencial poético, conta também com um forte potencial político. E por conta disso, é preciso criar mecanismos para nos libertarmos das amarras e produzirmos novos agenciamentos e novas possibilidades de pensamento dentro desses espaços. Sobre a realização da Jornada em Duque de Caxias, município que faz parte da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, Chagas lembrou do trabalho de Flávio Gomes (UFRJ – A Hidra e os Pântanos: quilombos e mocambos no Brasil: século XVII-XIX) sobre a constituição de quilombos na região, a chamada Hidra. Na mitologia grega, a Hidra de Lerna era um monstro que habitava o pântano, tinha corpo de dragão e 3 cabeças de serpente, quando uma delas era cortada, cresciam duas no lugar. Assim era a constituição de quilombos na região, quanto mais tentavam conter, mais apareciam.

A professora Mariza Soares (UFF-Museu Nacional) falou sobre sua experiência na organização da exposição “Kumbukumbu: África Memória e Patrimônio na Baixada Fluminense” e destacou que não é possível pensar na história da escravidão do Rio de Janeiro sem pensar no Recôncavo da Guanabara. Para quem quiser saber mais informações sobre a exposição, a professora indicou que o livro “Conhecendo a exposição Kumbukumbu do Museu Nacional” já está disponível online.

Hebe Mattos trouxe mais uma vez a experiência do projeto “Passados Presentes: Memória da Escravidão no Brasil” do qual eu tenho o privilégio de participar. Trata-se de um projeto de Turismo de Memória que resgata a História do tráfico de africanos para o Rio de Janeiro. Ao baixar o aplicativo “Passados Presentes”, é possível encontrar quatro roteiros que conduzem a locais relacionados ao tráfico negreiro e a história da escravidão no Brasil, são eles: 1) o centro do Rio de Janeiro; 2) a cidade de Pinheiral (sede do Jongo de Pinheiral); 3) o quilombo de São José da Serra (Valença); 4) o quilombo do Bracuí (Angra dos Reis). No centro do Rio de Janeiro, o circuito parte do Cais do Valongo e nos conduz a pontos de memória do tráfico negreiro, arte e religiosidade afrodescendente. Já na cidade de Pinheiral e nos territórios quilombolas de São José e Bracuí, além do circuito, contamos também com uma exposição permanente sobre a história de cada comunidade. O projeto é uma iniciativa do LABHOI – Laboratório de História Oral e Imagem (UFF) e do Núcleo de Memória e Documentação (UNIRIO). Em 2012 o projeto foi apresentado pelo Centro de Referência de Estudos Afro-Brasileiros do Sul Fluminense e a JLM Produções Artísticas ao Edital Petrobrás Cultural de Patrimônio Imaterial. Para o desenvolvimento da pesquisa e das plataformas digitais, o projeto também contou com o apoio dos Editais FAPERJ/COLUMBIA GLOBAL CENTER e do Programa da FAPERJ de “Apoio à Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia no Estado do Rio de Janeiro 2014”. 


Foto: Daniela Yabeta

No geral, duas questões foram recorrentes no encontro, a primeira delas diz respeito à constituição do Museu da Escravidão e da Liberdade (MEL) – Seria esse o nome mais apropriado? Como será constituído? A segunda questão diz respeito à atuação da Prefeitura do Rio de Janeiro com relação à crise enfrentada pelo Instituto dos Pretos Novos (IPN), maior cemitério de africanos escravizados da América Latina. De acordo com Cristina Lodi, coordenadora do futuro museu, em março desse ano foi constituído um Grupo de Trabalho destinado a elaborar um Plano de Ação para a criação do museu. Sobre o nome, trata-se de algo provisório e sujeito a mudanças. Todo conteúdo será discutido, principalmente no que se refere à dor de tratar sobre esse tema. Com relação ao IPN, ela informou que serão repassados 116 mil reais para o funcionamento de 2017.

Apesar de todo o sucesso que foi o evento, senti falta da participação de dois grupos: representantes das comunidades de terreiros, já que a região abriga um grande número de casas de candomblé e de terreiros de umbanda, e dos quilombolas de Maria Conga, única comunidade remanescente de quilombo certificada na região da “Hidra” da Baixada Fluminense. Esses dois grupos também estão ligados à herança da escravidão e discutem a constituição de memoriais em seus territórios. Como exemplo, temos o Memorial Iyá Davina no Ilê Axé Omolu Oxum - que “abriga acervo material referente à religião dos orixás e a formação das primeiras comunidades de candomblé no Rio de Janeiro” - e o Memorial Cristóvão dos Anjos construído no Asé Pantanal.

Fica aqui a dica para o próximo encontro. Gostaria muito de ouvir essas experiências nas mesas de debate.


Daniela Yabeta - Pós-Doutoranda em História (UFF - FAPERJ); Editora da Revista do Observatório Quilombola


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Dona Dandinha e o quilombo Pitanga dos Palmares (BA)

Faz tempo que eu estou tentando voltar com a nosso Caderno de Campo. Foram várias as ideias que eu troquei com minha parceira Ana Gualberto sobre o que escrever para abrir o ano de 2017, mas o danado do texto nunca saia.

Entre lá e cá, colocando a leitura dos meus e-mails em dia, me deparei com uma mensagem encaminhada pelo antropólogo José Augusto Laranjeiras Sampaio para o grupo GT Quilombos, do qual faço parte. A mensagem original foi enviada por Sheila Brasileiro e diz o seguinte:

“Olá, pessoal!Dona Dandinha, a simpática senhora das fotos abaixo, é uma das fundadoras do quilombo Pitanga dos Palmares, situado em Simões Filho. Ela está muito debilitada e necessita com urgência de uma cadeira de rodas. Pode ser usada. Contato: Flávio Pacífico ("Binho do quilombo", presidente da Associação Quilombola de Pitanga dos Palmares)”

Dona Berna e Dona Dandinha: Simões On Line News

Ao tomar conhecimento da situação de Dona Dandinha, entrei em contato com o Flávio Pacífico por e-mail e whatsapp. Perguntei se eles haviam conseguido a cadeira de rodas para nossa ilustre quilombola e ele me informou que infelizmente não.

Na mesma hora, mandei uma mensagem para Ana Gualberto em Salvador e propus que fizéssemos uma vaquinha virtual para arrecadar a grana e comprar uma cadeira de rodas para Dona Dandinha. Para quem quiser contribuir, ainda dá tempo. Aqui está o link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/cadeira-de-rodas-para-dona-dandinha

Dona Dandinha – Simões On Line News

A partir da história de Dona Dandinha fui buscar mais informações sobre o quilombo de Pitanga dos Palmares, localizado no município de Simões Filho (BA).

De acordo com os dados da Fundação Cultural Palmares, existem três comunidades certificadas na cidade: 1) Dandá (2002); 2) Pitanga dos Palmares (2004); 3) Rio dos Macacos (2011).

Sobre o quilombo de Dandá, em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu a comunidade quilombola como locação para a filmagem de um documentário (Brazil: The StoryofSlavery) sobre a atual situação dos descendentes de escravizados. A iniciativa faz parte do projeto 2015-2014 – Década Internacional dos Afrodescendentes”.

O quilombo de Rio dos Macacos é o mais famoso da região de Simões Filho. Isso por conta do conflito que os quilombolas vivem com a Marinha do Brasil. Em 2012, um dossiê de Violações de Direitos Humanos foi apresentado na Organização das Nações Unidas (ONU), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização dos Estados Americanos (OEA) denunciando as arbitrariedades cometidas contra os quilombolas. Para conhecer melhor o caso, vale a pena assistir do documentário “Quilombo Rio dos Macacos”.

Com relação ao quilombo Pitanga dos Palmares, além de certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2004, a comunidade iniciou o processo administrativo pela titulação de seu território no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em 2008. Porém, até hoje, o processo ainda não foi finalizado.

Pitanga dos Palmares destaca-se através de dois grupos de mulheres: as artesãs que trabalham com a piaçava e as bordadeiras que produzem peças maravilhosas em ponto de cruz.

Oficina de arte com piaçava – Comunidade Quilombola Pitanga dos Palmares

Maria Cândida dos Santos, nossa Dona Dandinha (81 anos), é uma mulher quilombola guerreira. Durante muito tempo, ela sobreviveu através da produção manual do azeite de dendê e é considerada pela comunidade como uma das “guardiãs” da cultura local. Flávio Pacífico, o Binho do Quilombo, compôs uma música em sua homenagem chamada Música do Pilão.

Dona Dandinha foi casada com Matias dos Santos, o grande mestre do Samba de Viola da localidade. Nas festas de São Gonçalo do Amarante, o santo dos agricultores e padroeiro da comunidade, o samba de viola anima a todos. O grupo é composto por 18 sambadeiras e 12 tocadores. Dona Dandinha era a sambadeira mais velha da comunidade.

Infelizmente, ela foi diagnosticada com DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, o que torna sua respiração muito difícil. Dona Dandinha está tentando receber o oxigênio pelo SUS – Sistema Único de Saúde, mas enquanto a liberação não chega, os familiares estão pagando com seus recursos. Além do oxigênio, ela também necessita de uma cadeira de rodas para melhorar sua qualidade de vida. Diante do tanto que essa mulher representa, acho que o mínimo que podemos fazer é ajudá-la. Por isso, essa primeira página do Caderno de Campo de 2017 é dedicada a ela.

Tenho fé nos orixás, em São Gonçalo do Amarante e conto com a ajuda de vocês. A cadeira de rodas vai chegar em Pitanga dos Palmares para Dona Dandinha!

Até mais!

Dona Dandinha – Casa do Samba Dona Alvina


Daniela Yabeta - Pós-Doutoranda em História (UFF - FAPERJ); Editora da Revista do Observatório Quilombola

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

8º Encontro Escravidão & Liberdade no Brasil Meridional

Vocês sabiam que ainda hoje é muito comum pensarem que não existiu escravidão no sul do Brasil? Pois é, por mais que os historiadores tenham trabalhado em pesquisas desmistificando essa questão, de forma geral, grande parte da população ainda acredita que a terra da Gisele Bündchen e da Oktoberfest não sofreu a violência da escravidão. Acontece que, na realidade, a história foi bem diferente. Para vocês terem uma ideia, de acordo com dados da Fundação Cultural Palmares, existem hoje no sul do Brasil 141 comunidades remanescentes de quilombo certificadas: 94 no Rio Grande do Sul, 12 em Santa Catarina e 35 no Paraná.

Foi pensando nessa questão que resolvi divulgar aqui, no nosso Caderno de Campo, o 8º Encontro de Escravidão & Liberdade no Brasil Meridional, que “tem por objetivo reunir pesquisadores que se dedicam aos temas da escravidão, da liberdade e do pós-abolição na região sul do país, bem como aqueles que, tratando de temas correlatos ou estudando outros espaços, possa estabelecer conexões com a região ou com os temas privilegiados no evento”.

A primeira edição do encontro aconteceu em setembro de 2003, na cidade de Castro (PR) e desde então, o evento tem se destacado por reunir os maiores especialistas sobre a temática.




Em 2009, tive a oportunidade de participar do 4º encontro, realizado na cidade de Curitiba (PR), quando apresentei parte da minha pesquisa de mestrado sobre o tráfico ilegal de africanos escravizados na Ilha da Marambaia: “Tudo chegou sobrevivente num navio – A Auditoria Geral da Marinha contra o tráfico de africanos livres pós 1850 no Rio de Janeiro”. Na ocasião, também pude conhecer o trabalho de Marcia Naomi Kuniochi e Claudia Daiane Molet, “Uma comunidade quilombola na rota dos tropeiros: quilombolas do Limoeiro”. 




Entretanto, nos encontros anteriores, que ocorreram nos anos de 2005 (Porto Alegre, RS) e 2007 (Florianópolis, SC), outras pesquisas maravilhosas sobre a questão quilombola também foram apresentadas. Destaco aqui os seguintes textos: 1) “Entre a serra e o litoral: fugas e quilombos na fronteira leste do Rio Grande do Sul e Santa Catarina”, de Luana Teixeira; 2) “Aspectos constituintes da história da comunidade quilombola presente no interior de Giruá, RS”, de Elci Deloss Tolomini, Carla Regina Wegner Copetti, Sandra Beatriz Essenberg, Savio Antônio Reginatto e Denise M. dos Santos Mello; 3) “Quilombo: africanos, índios e seus descendentes lutaram pela liberdade”, de Aldemir Fiabani; 4) “Athe a completa extinção – Quilombos em regiões florestais e a luta por liberdade no extremo sul do Brasil (Rio Pardo, séc. XIX)”, de José Paulo Eckert; 5) “Quilombo Arnesto Penna Carneiro: resistência da ancestralidade negra”, de Ana Lúcia Aguiar Melo e Dilmar Luiz Lopes.







No ano de 2011, durante o 5º encontro, participei da sessão intitulada “Comunidades negras e quilombos, ontem e hoje”. A mesa foi composta pelas seguintes pesquisas: “Comunidade quilombola de Maçambique: memória, marcadores territoriais e processos de resistência”, de Cláudio Baptista Carle e Solange de Oliveira, “Parentesco escravo e em comunidades negras rurais: um estudo de caso”, de Rosane Aparecida Rubert e Luiza Spinelli Pinto Wolff, e a primeira parte da minha pesquisa de doutorado “Marambaia versus Marinha: conflito pela titulação de um território quilombola no Rio de Janeiro”.

Em 2013, eu perdi o 6º encontro na cidade de Florianópolis (SC), mas deixo aqui registrado a pesquisa de Claudia Daiane Garcia Molet, “Casca e Limoeiro: as comunidades quilombolas no litoral negro do Rio Grande do Sul, durante o século XIX”.






Para o 8º encontro deixo aqui o convite para que todos inscrevam suas pesquisas sobre comunidades quilombolas. De acordo com a organização do evento, a inscrição de trabalhos terá duas modalidades: comunicação oral e apresentação de pôster. As propostas devem ser enviadas até dia 20 de janeiro de 2017 e o evento ocorrerá entre os dias 24/27 de maio de 2017 na cidade de Porto Alegre (RS).





Vejo vocês por lá!


Daniela Yabeta - Pós-Doutoranda em História (UFF - FAPERJ); Editora da Revista do Observatório Quilombola

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A Marambaia do filme “Onde a terra acaba” (1931)

Aqui em casa, toda sexta-feira é dia de cinema. Hoje, resolvi trazer esse espírito cinematográfico para o Caderno de Campo e escrever um pouco sobre o período em que a Ilha da Marambaia - local que hoje abriga uma comunidade remanescente de quilombo, foi cenário da obra do grande cineasta Mário Peixoto. Trata-se do filme “Onde a terra acaba”, que por ironia do destino, nunca foi finalizado.

Porém, antes de falarmos sobre as filmagens de “Onde a terra acaba”, vale a pena conhecermos outra obra de Mário Peixoto, o filme “Limite”.

Em 2007, durante a 60ª Edição do Festival de Cannes, o filme brasileiro “Limite” de 1931, do cineasta Mário Peixoto, foi escolhido para ser exibido em duas seções. Primeiro na seção Cannes Classics, depois na inauguração da World Cinema Foundation, criada pelo diretor americano Martin Scorsese com o objetivo de arrecadar fundos para a exibição de filmes antigos. Apesar de pouco conhecido no Brasil, “Limite” é considerado um dos principais filmes da história do cinema brasileiro.

Tudo bem, mas o que tem isso a ver com a Marambaia? - você deve estar se perguntando. Bem, o festival de Cannes não tem nada a ver, pelo menos por enquanto, mas Mário Peixoto sim.

Nascido em 25 de março de 1908, Mário Peixoto era filho de João Cornélio Rodrigues Peixoto e de Carmen de Souza Breves. Seus avós maternos eram Joaquim José de Souza Breves Filho e Justina Bello de Souza Breves. Portanto, o nosso comendador da Marambaia, Joaquim José de Souza Breves, era bisavô do cineasta.



Foto: Mário Peixoto (1908-1992) / Nonada – Jornalismo Travessia

Saulo Pereira de Mello, um dos responsáveis pela restauração do filme exibido em Cannes, escreveu “Breve esboço de uma cinebiografia de Mário Peixoto”, onde encontrei preciosas informações sobre a trajetória do cineasta. Quanto ao clássico “Limite”, consta que foi filmado em Mangaratiba, entre maio de 1930 e janeiro de 1931. A equipe era composta por Olga Breno, Raul Schnoor, Iolanda Bernardes (que depois adotou o nome artístico de Taciana Rey), Brutus Pedreira, Edgar Brasil, entre outros. Todos ficaram hospedados na fazenda Santa Justina, propriedade de Vítor Breves, tio de Mário e prefeito da cidade. O poder da família Breves ainda continuava firme e forte na região. (Esse ano, a fazenda Santa Justina e a fazenda Santa Isabel foram certificadas pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo. Ver: Caderno de Campo – Sobre o quilombo de Santa Justina e Santa Isabel: apesar do golpe, seguiremos firme!)

Em 1931, durante a montagem do filme “Limite”, Mário Peixoto conheceu a atriz, produtora, diretora e roteirista, Carmen Santos, “a mais linda e mais prestigiosa figura do nosso cinema”. Quem os apresentou foi Edgar Brasil, que na época, estava utilizando o laboratório localizado nos fundos da casa de Carmem para selecionar o material da montagem do filme. Impressionada com as imagens, Carmen encomendou a Mário um roteiro para sua próxima produção, em troca, ele poderia terminar o trabalho em seu laboratório sem pagar nada. Negócio fechado! O resultado dessa parceria foi que antes mesmo do “Limite” ser exibido, Mário já anunciava que Carmen Santos seria a estrela e produtora de seu próximo filme chamado “Onde a terra acaba”.



Foto: Carmem Santos (1904-1952) / CinemaBrasileiro

O local escolhido por Mário para as filmagens de “Onde a terra acaba” foi a praia do Sino, na Marambaia, local que no século XIX, pertenceu ao seu bisavô, o comendador Joaquim Breves e que era utilizado como porto de desembarque clandestino de africanos escravizados. O roteiro do filme conta a história de uma escritora, interpretada por Carmen Santos, que foge para uma ilha em busca de inspiração para seu novo romance. Sua decisão mexe com a vida de dois homens, o ex-marido e o novo amante, interpretados respectivamente por e Brutus Pedreira e Raul Schnoor. A direção de fotografia foi confiada mais uma vez a Edgar Brasil.

Considerado um projeto caríssimo e inovador, a produção foi toda financiada por Carmen Santos. Ela apostava que o filme a consagraria de vez como a maior estrela de todos os tempos! Para isso, investiu pesado na divulgação da produção e das filmagens. A coluna “Cinelândia” do periódico A Batalha, a coluna “Cinematografia” do periódico A Noite, o jornal O Globo e a revista A Scena Muda, estavam entre os que publicavam notícias sobre a equipe na ilha.

No geral, descreviam a Marambaia de duas formas. Ora como um “recanto bucólico e romântico do nosso litoral” ideal para “um filme que se destina a um sucesso louco”, ora como um local de “praias ermas” e “florestas sombrias”, que só valia a pena encarar pela “glória do cinema brasileiro”. A chamada “caravana de Carmen Santos e Mário Peixoto” partiu levando “vinte pessoas, grande quantidade de material para construção de casas e o necessário para a filmagem”. A ideia era que o grupo ficasse na ilha até dezembro daquele mesmo ano. As casas tinham o objetivo de “suavizarem o desconforto da ilha abandonada”. Entretanto, apesar da construção de uma verdadeira cidade para desenvolver a ação do filme”, o que mais impressionava era um “laboratório em pleno funcionamento, em pleno coração da floresta”. Quem hoje visita a ilha, sabe das restrições e da dificuldade de chegar até a praia do Sino. Fico imaginando como foi montar uma cidade cinematográfica em 1931.



Foto: Exibição “Onde a terra acaba” na Marambaia – A Scena Muda (06/10/1931)

Não havia a menor dúvida de que “Onde a terra acaba” seria o “filme que há de ser o orgulho do Brasil”. Pela primeira vez uma produção nacional utilizava aparelhos captadores de som. A ideia era “um filme de imagens e sons sincronizados, com uma musicação própria e original de Brutus Pedreira”, compositor que também atuava como um dos atores do filme.

O título da produção também inspirava muitos comentários, “faz a gente meditar”, diziam. Os jornalistas que visitaram as instalações comentavam que “só mesmo vendo o que é a Marambaia com seus vastíssimos lençóis de areia, seu mar em agitação brutal e constante” e “sua floresta brava”, poderiam entender que “o pior de tudo” era o “seu isolamento que dá a impressão de ser mesmo ali o lugar onde a terra acaba”.

Os atores Raul Schnoor e Brutus Pedreira declaravam que na ilha “a vida é tranquila e completa no seu primitivismo”. A estrela Carmen Santos, quando vinha ao “Rio descansar das fadigas e do abandono” em que vivia “no seu estúdio improvisado na Ilha da Marambaia”, concedia várias entrevistas sobre sua vida longe da civilização.

Descrita como uma mulher “vibrátil e emotiva”, “formosa e inteligente”, Carmen Santos falou de seu filme “com a vivacidade e o orgulho de quem confia na vitória”. Considerava Mário Peixoto “a maior revelação brasileira do cinema”. Sobre a Marambaia, declarou que “cada canto da ilha deserta é um hino erguido à beleza”. Quanto às instalações que construíram na localidade, “nas proximidades da praia do Sino”, tratava-se realmente de “uma cidade em miniatura”. Para conseguirem erguê-la, contaram com “um pequeno exército de operários, nas suas respectivas especialidades”. Para facilitar os trabalhos, levaram prontas as casas de madeira. O laboratório ficava um pouco distante das moradias. Para a captação de água foram utilizados “bambus enroscados uns nos outros desde as alturas das nascentes até os seus respectivos destinos: a cozinha e o laboratório”. Carmen contou que os macacos, “os legítimos donos da ilha”, deram bastante trabalho ao “tratarem de remover e destruir os bambus”. Sobre a alimentação do grupo, a atriz explicou que apesar da ilha apresentar solo fértil, não havia quase nenhuma fruta para colher e até mesmo o peixe era escasso. Para ajudar na alimentação, o iate particular de Carmen foi colocado à disposição das filmagens, viajava até Mangaratiba duas vezes por semana e comprova mantimentos para a equipe.

No final de sua entrevista, Carmen Santos finalmente falou sobre a população que habitava a ilha. A estrela estava instalada na praia do Sino, atualmente, ninguém mais mora nessa praia, mas na época em que Carmem esteve por lá, ela contou “cerca de quarenta pessoas” vivendo na praia.

Carmen descreveu os pescadores como “gente ingênua e boa”. Dizia ter se afeiçoado às famílias e declarou que “chegou a ensiná-los a ler”. Comprou livros e um quadro negro para “explicar a um grupo de crianças os segredos do ABC e dos algarítimos”. Para as mulheres, ensinou a costura: “Ah! Como me surpreendeu a inteligência daquela gente. Aprendem tudo com facilidade e mostram emprenho em saber. Procuram-me, insistem pelas lições”, declarou a atriz. Se realmente o empenho de Carmen era verdadeiro ou se era mais uma jogada de marketing em torno de seu filme, não saberemos, pois entre os atuais moradores da Marambaia, ninguém mais lembra do tempo em que a ilha foi a nossa Hollywood. “Coitadinhos! Tão bons e prestativos! E vivem no entanto ali, quase nus”, afirmou Carmen durante a entrevista.

Na revista A Scena Muda de janeiro de 1932, encontrei a seguinte matéria: “Carmen Santos e o natal na Marambaia”. Dizia que pela primeira vez, “em toda a sua existência milenária” os ilhéus comemoraram o natal “com as festas, as explosões de alegria e as benesses de Papai Noel que tanto o caracterizam”. Tudo isso graças ao “coração bem formado e generoso de Carmen Santos, a estrela patrícia”. A atriz não “quis que o natal passasse sem florir de felicidade a noite augusta daquela gente humilde que da vida só conhece as amarguras, os dissabores e as desilusões”. Vestiu-se de Papai Noel e distribuiu presentes a todos: “a este um par de sapatos, aquele um terno de roupa, a este outro um chapéu, um vestido e entre sorrisos, bombons e doces a todos”.



Foto: Carmen Santos distribuindo presentes para crianças na Marambaia – A Scena Muda (05/01/1932)

Apesar de todo o investimento, um desentendimento entre Carmen e Mário inviabilizou o projeto. Pouco mais de “trezentos metros de copião não montado e com repetições” foi o que restou de toda a megaprodução. Mário queixava-se das constantes fugas de Carmem para o Rio a bordo de seu iate Regine que foi colocado à disposição das filmagens. Além disso, devido a grande publicidade em torno do filme, a praia do Sino passou a ser constantemente visitada por personalidades, parentes, amigos e jornalistas. O que também não agradou nem um pouco o diretor. Depois de uma ausência prolongada de Carmen, Mário abandonou o projeto e ninguém conseguiu trazê-lo de volta. Carmem ficou com o titulo do filme, mudou de história e de diretor. Octavio Mendes foi o escolhido para assumir o lugar de Mário e a nova história foi baseada no romance “Senhora”, de José de Alencar.

Durante os meses em que a equipe permaneceu na Marambaia, apenas um terço da história foi filmada. Anos mais tarde, em 1944, a maior parte do material registrado na ilha se perdeu em um incêndio ocorrido na Brasil Vitta Filmes, produtora de Carmen Santos. Outros pequenos trechos ainda podem ser conferidos no documentário sobre a vida e a obra de Mário Peixoto, produzido por Sérgio Machado, em 2001. O nome, “Onde a terra acaba”, é em homenagem ao filme do cineasta que nunca foi finalizado.



Foto: Cartaz do filme de Sérgio Machado

Os jornais não pouparam comentários ácidos sobre o fim da parceria entre Carmen Santos e Mário Peixoto. Em 06 de janeiro de 1932, a coluna “Cinelândia” do periódico A Batalha publicou uma nota sobre a produção dizendo:



Fonte: A Batalha, 06 de janeiro de 1932

Transcrição: “Parece incrível a facilidade com que aqui se ilude a boa fé pública. Há mais de um ano surgiu uma notícia agradável. A senhora Carmen Santos seguira para Marambaia, com todo o necessário para a confecção de um filme que seria o grito mais audacioso do cinema brasileiro. Os jornais se embandeiraram em arco. Também não era pra menos. A senhora Carmen Santos já fizera um filme com bastante êxito. E Mário Peixoto, que em “Limite” fez a obra de audácia, estava indicado para a direção do novo filme daquela estrela. Desse consórcio era lícito, portanto, esperarmos alguma coisa. E os jornais começaram a reclame. Só para atrapalhar, houve porém, um malentendido qualquer que resultou Mario Peixoto abandonar a direção depois de filmadas várias cenas de Onde a terra acaba. Apareceu novo diretor, e o filme já foi recomeçado. A reclame continua sempre...Onde a terra acaba esta quase pronto...Pois agora me vem uma novidade sensacional. Octavio Mendes, que dirigiu Mulher para Cinédia, estava sendo procurado para dirigir Onde a terra acaba em substituição ao novo diretor que já substituiu o primeiro. Ora, com efeito, até parece brincadeira de criança. Afinal terminaram ou não terminaram o filme? Pelos modos, parece que ele só será exibido lá longe, onde a terra acaba...E vamos brincar de adivinhar onde é isso!”

Os anos passaram e a estadia de Carmen Santos na Marambaia ainda rendia comentários. Em dezembro de 1933, a coluna “O Globo nos Cinemas”, do jornal O Globo, publicou as profecias de Madame Ocidental para 1934, entre elas, destacava-se a seguinte: “Vejo a Ilha da Marambaia afundar-se com a star Carmen Santos, que se abraça a câmera fazendo uma promessa de mudar de assunto. A ilha não acredita e mergulha. O poeta Alberto de Oliveira lançará um soneto samba intitulado A vingança da ilha”.

A Ilha da Marambaia abriga desde 1970 o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM), uma Organização Militar (OM) subordinada ao Comando do Pessoal de Fuzileiros Navais (CPesFN). A missão do CADIM é contribuir para o adestramento de Forças Navais e dos Fuzileiros Navais. Vale a pena destacar que lá é o único lugar do estado do Rio de Janeiro onde navios, aeronaves e veículos militares fazem uso de armamento real para adestramento.

É lá também que vive a comunidade remanescente de quilombo da Ilha da Marambaia, certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2006 e titulada pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 2015. Atualmente, praia do Sino, onde foram realizadas as filmagens, ficou na memória do tempo dos desembarques ilegais de africanos escravizados. Durante conversa com a quilombola Vânia Guerra, ela me contou que a praia do Sino também era conhecida como praia do Fim por conta da quantidade de navios que encalhavam e naufragavam por ali.

Na primeira vez que estive na Marambaia, em 04 de dezembro de 2005, tive a oportunidade de visitar a praia do Sino. Os quilombolas contam que por ter sido uma área de desembarque ilegal, o local é “muito pesado”. A visita foi sensacional, apesar da caminhada ser bem puxada. A vista é deslumbrante e o mar bate forte e agitado. O sino não está mais lá e ninguém mais mora naquela parte da ilha. Percebi o tamanho respeito que os ilhéus tem pela localidade quando uma das crianças que nos acompanhavam escorregou e acabou se machucando entre os ouriços do mar. Aquele era um sinal para deixarmos a praia.

Diante de tanto mistérios, de tantas energias que habitam a localidade e de tantos contratempos durante as filmagens, fico pensando com meus botões: será que a equipe de “Onde a terra acaba” teve permissão para fazer um filme ali? Mistério!

PS (1): O texto foi escrito na sexta-feira, 02 de dezembro de 2016. Porém mudamos a data de publicação da nossa coluna Caderno de Campo para as segundas-feiras. Achei melhor não mudar o que já estava feito.

PS (2): O texto é uma pequena parte da minha tese, com algumas alterações. Para quem quiser consultar – Maramabaia: História, Memória e Direito na luta pela titulação de um território quilombola no Rio de Janeiro (c.1850- tempo presente).


Daniela Yabeta - Pós-Doutoranda em História (UFF - FAPERJ); Editora da Revista do Observatório Quilombola





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